Histórias Possíveis

O cu do mundo - parte 5

Maio 9, 2008 · Não Há Comentários

De MARCO AURÉLIO CREMASCO.

(Capítulos anteriores: PRIMEIRO - SEGUNDO - TERCEIRO - QUARTO)

5.1
Há um sussurro no horizonte. Sussurro, não: um grito pervertido de um cometa que anuncia a ressurreição de um maldito. Sua vinda será em degelo andino. No olhar, o brilho enigmático de um urubu solitário. Na voz, o vozeio dos caiporas. Os passos, esgotos. O rosto, a imagem escondida daquele que se envergonha da liberdade. Um dia, ele foi um ornitorrinco tropical: olhos de morcegos surdos, garras de galinha caipira, cauda de caititu, chifres de anhangá, sorriso de curupira, pescoço de pudim e o humor do admirável homem dos gualachos… algumas bactérias hospitaleiras. Incrivelmente horrendo e maravilhosamente parecido contigo. Virá montado no Cenouras (este, primo distante do Silver; lembra?: aiôo!). Muitos lutarão, irão à televisão e farão passeata contra a pornografia. Escreverão em jornais e o amaldiçoarão. Ele voltará!, enquanto outros estarão mortos e putrefatos. Ele se apossou de vários corpos e mentes: rebeldes, intoleráveis… extremamente dispensável.

5.2
Não, não mais. O tempo é outro, entende? Passei dos vinte e três e preciso… Mudar. A história se repete. Estado de saco cheio que empurra para a minha sereia do auto mar. Amarre-o ao mastro da realidade, Odisseu!, dos recifes cotidianos ao refúgio silencioso no fundo da casa de um bicho-da-seda. Cu de ferro? Sou sim: insuportável, ranzinza, chato, alienado e covarde. Sim e muito mais do que um mero rapaz.

5.3
A vida? Retrato fiel de quem a experimenta. Fugirei. Quero sossego da própria sombra. Estou podre, pobre Terra. Mater nuvem gasosa. Convenço-me dia-a-dia que a Terra é uma laranja grávida que gravita grande elétron roda roda no entorno do Sol, transladam por Vega, constelando Lira rodam rodam pelo Universo que roda roda para explodir. A eternidade é a ausência do tempo e todo ele. O infinito é a ausência do espaço e todo ele.

5.4
Estou podre, pobre Terra. Você também? Deixe-me enquanto caio nas malhas ardilosas da Mecânica Quântica do Mr. Planck. Não me lembro. Esqueço fácil das cores, das luzes refletidas na poça de urina. Após rotação de xyº o elétron adquire nova posição de equilíbrio. O Universo expande e eu não sinto as trombadas cósmicas, a não ser nas horas congestionadas da privada. Abra! Tomar banho. Pressa. Dar descarga, Sr. Merda! Abro sem olhar naquela cara com enfeites de samambaia. Serzinho neutro, meu.

5.5
Esqueçam-me quieto neste quarto. Não me apetecem revoluções ou esse troço cósmico. Sou o lado contrário do Universo. O pulsar único do coração que bombeia sangue de barata. De barata. Não de moscas, bentendido, papa Benedito? Odeio, definitivamente, moscas. Urge alguém, assim: corajoso, que provoque polêmica e dizime moscas marcianas. Alguém que estabeleça o Caos; reação em cadeia, capaz de expandir estilhaços de vísceras dionisíacas. Não eu. Jamais. Estarei aqui ou ali, neste ou naquele país. Tudo pára no mesmo lugar.

5.6
Recolho-me nesta tela espelhada em seus olhos. Quatro paredes de cérebro contaminado. Infesto-me. Fecho-me no universo de insignificante ser humano. Precisa ir à missa, filho! Confessar, comungar. Receber o corpo de Cristo das mãos do… (ó Deus, perdoe-me!) PADRE. Tomar o sangue de Cristo para purificar-se do pecado. Há tanto, filho! O mundo não é o mesmo de há vinte anos. O filho do vizinho: vive drogado, desempregado e se diz escritor. A Ruth, prima da Vilma, está grávida e ninguém sabe do Pai. Eleve-se aos céus. Dê-se ao Misericordioso. Luz. Sombras que zombam. Assusto. Levanto. Cabeça na parede. Dios ha hecho pan para sustento del hombre Todo para el ángel! Esta es mi rabia, este mi furor. Espírito sobressalta. Sai aura fora. Preciso calma, calma. Calma alma, lama. Água. Copo. Sonífero. Após tanto tempo o padre conserva o cheiro de lavanda nas mãos. O Pai sacrificou o Filho. Cristo deu o corpo para ser sepultado depois renascido. Plantaram Cristo no sepulcro de Arimatéia para brotar depois de três dias. Por Deus Todo Poderoso, vão em paz. Vão todos os pensamentos vãos, pois a noite se foi. Sabe, filhinho, a situação está difícil. O dinheiro rareando e você, aí, quieto, preso a você mesmo.

5.7
Sou ariano alienado, fruto rasgado do que me fizeram no ermo das miragens. A mulher que me busca é feita de luz. Assusto. Levanto. O dia nasce translúcido. A febre desce nos olhos torpes. Está aberta, senhores, a temporada de caças às borboletas.

5.8
Muito bem. Muito bem. Esqueçam a tempestade por vir, pois na medida em que se estreitam os espaços entre as moléculas, começa haver outro estado físico. Da galinha pro ovo. O raio de translação diminui de tal monta que a molécula em vez de transladar, vibra… gira, gira, pomba!, gira, tromba, colide, choca… do ovo pra galinha. Freqüente freqüência.

5.9
Ó Grande Deusa! Basta sonhar o elétron e alcançar o Universo. Bosta para conhecer e perguntar: e daí?, agora que descobri o que posso fazer deste Tudo aprisionado nas mãos? Não agüentamos, filho. Precisamos interná-lo. O pão repartido. O sangue. O vinho. O corpo de Cristo distribuído. Avançar. Estraçalhar. Divinizar-se no rito secreto da natureza humana. O corpo de Deus. O corpo do Homem. Homem divino dividido na comunhão do céu com a terra. O céu fecunda a terra. A terra alimenta o homem. O homem agrada a Deus no pão, no vinho, ungidos no Filho. Vinho acidulado. Vinho de sangue vindo do menino Jesus de Praga. As sete pragas do Egito são as pestes que vivi e nunca aprendi que a raiz quadrada do p é um número sem fim.

5.10
Com base no cenário do Big Bang estima-se, malemá, a massa da matéria bariônica do Universo. Os objetos de brilhos tênues constituem a matéria escura bariônica. Não se esqueçam que a massa da matéria bariônica é bem menor do que à inferida por forças gravitacionais: trata-se do postulado demarchi-faccionesco. Existe a necessidade, portanto, da presença de partículas não-bariônicas para dar conta de tal discrepância. Ninguém sabe o que sejam tais partículas, mas devem ser muito mais numerosas do que as ordinárias que conhecemos. As partículas não-bariônicas não absorvem e nem emitem radiação eletromagnética, sendo inferidas pela interação gravitacional que exercem sobre a matéria comum. São denominadas matéria escura não-bariônica. Cerca de 90 a 96% do Universo é escuro e não emite radiação eletromagnética. Ou seja, nossos estudos atingem, no máximo, 10% do que se pode conhecer. Se o mais poderoso ser utiliza 10% de sua capacidade mental, isto o reduz, na melhor das hipóteses, a 1% do que se pode apreender. Caso se considere que 1% da população mundial utilize, absolutamente, de toda a sua atual potencialidade mental, existem 99,99% de tudo a ser desvendado. Nesta situação, meus caros, imaginem que para se atingir algo que beire (olhe: beire) a perfeição, alguém tenha de escalar uma pirâmide de 10 mil degraus. Os seres que se consideram superior, no que for, conseguiram, no máximo, resvalar o primeiro degrau e esquecem que faltam outros 999! Grandes seres superiores a um protozoário.

5.11
Não nos devemos esquecer que existe a possibilidade de pressões negativas havendo, por via de conseqüência, uma infinidade de modelos para representar a realidade e, dessa maneira, compreender o ser. A base está na Natureza a partir de observações que se prolongaram por séculos, edificando a memória, construída no acúmulo de informações, afogando-se e perdendo-se em labirintos, culminando na produção de uma bomba sensacional para explodir as paredes da compreensão e, assim, encontrar uma saída. Nós, herdeiros e mentores de tantos modelos, absorvemos, cômodos, as divisões, separações - fazendo disso, regras e mascarando a Natureza, como Apolo a Dioniso na iniciação órfica. Tudo tem de funcionar em perfeito equilíbrio. Vivemos no medo das dúvidas, pois elas nos revelam. Necessitamos de explicações que fornecerão a ordem necessária à sobrevivência. Enfim, o ciclo: somos neolíticos na era do conhecimento e tememos a turbulência causada por nossas fraquezas. Somos lineares, laminares. Somos tomados por um delírio selvagem ao chegarmos ao trabalho, como vocês, que a mim depositam o olhar. Não acreditem nos olhos. Tudo está por vir. Faço parte de 99,99% da população mundial e rastejo para escalar o primeiro degrau de uma pirâmide insana. Quanto a você que não presta a mínima atenção, acho que não veio do Cu do Mundo, mas do Cu do Universo. Eu, que me considerava merda, devo ser a merda da cianobactéria que dilacera o cérebro de um cadáver desconhecido.

5.12
O que estão fazendo ai? Navegando? Há tudo a ser descoberto lá fora. Saio, sorrio e babo. O que significa esta blusa estranha?, não tenho frio. Qual a razão da injeção?

(…continua)

.

Categorias: Marco Aurélio Cremasco