A mãe é ouro, o pai é …

de Erwin Maack

Iyá ni wura, baba ni digi. (Provérbio Iorubá)

Fui colocado diante desse enigma: qual é o próximo termo da oração desse dito popular, acolhido por Antonio Olinto? Esta narrativa resulta da busca e das conexões feitas para tentar resolvê-lo.

Podemos procurar a história da palavra escrita. Dela se originou o livro e do armazenamento do livro, a biblioteca. Acabamos por esbarrar na China. É lá que encontramos o mais antigo exemplar de um livro, o budista “Sutra Diamante”, dos anos oitocentos da nossa era. Encontrei também, relatos de livros de grande tiragem. Versavam sobre o futuro, calendários e horóscopos. Parece que os chineses tiveram tempo, curiosidade e recursos, para inventar tudo. Inclusive o espelho mágico, um aparelho divinatório, que buscava a revelação da palavra divina. Por esse caminho, deduzo que a trilha será mais longa.

Vou tentar a dedução: A mãe é ouro,…

A interpretação dessa primeira parte, não apresenta dificuldade. O sentimento da mãe como única e rara ainda persiste nos dias de hoje, talvez sem tanto empenho. Principalmente quando tudo se arruína, lá está ela à nossa espera com conforto, confiança e apoio.

Na economia dá-se o mesmo. Quando a ruína ronda o mundo a busca por refúgio no ouro não é um paralelo desatualizado. A segurança materna, a segurança econômica, a ductilidade e a beleza garantem o sucesso.

Os povos neolíticos do Egito conheciam o ouro e o chamavam de nub. Antes do ano quatro mil da era cristã. Os relatos de envio de criminosos e presos políticos para o trabalho nas minas em regime de escravidão são estáveis e copiosos.

Sabemos também que os africanos foram pioneiros na exploração do ouro. Koumb Saleh (Kumba Salah), em Gana foi famosa por suas casas decoradas com metais brancos e amarelos no século onze e também por descobrir as vantagens de vender sempre em pequenas quantidades, mantendo o preço estável.

Estabelecida a existência abundante do metal, e a sua importância para os naturais da terra, podemos especular uma primeira tentativa de solução para a segunda parte do ditado: A mãe é ouro, pai é prata.

Apesar de lógica essa conclusão não parece digna de suportar o peso dos anos e dos fatos por colocar os homens numa posição subalterna. Ao pai deve ser atribuído outro valor, algo nem abaixo, nem acima – diferente. Apenas diferente, seja em temperamento, caráter ou comportamento.

A prata nos dá uma indicação, uma direção, nos remete aos Incas e às suas fabulosas minas de prata, suas estradas magníficas cobrindo e cobrando pedágio desde a Colômbia até o norte do Chile, facilitando a comunicação, e somos conduzidos aos Maias, Astecas e Toltecas, à América Central e suas pirâmides de pedras lavradas com instrumentos feitos de obsidianas, suas facas prismáticas feitas desse material vulcânico, com gume mais afiado que os modernos bisturis, servindo para sacrifícios humanos. Entretanto, não creio que conseguiremos nenhum elemento para conseguir uma conexão, por esse atalho.

Voltemos, portanto, à prata. Ela é indispensável à elaboração dos espelhos. Espelho é o nome de um livro de Eduardo Galeano, e lá encontramos:

“Os espelhos estão cheios de gente
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?”

Estou em um beco sem saída. Assisto a um filme.

Santiago defronte ao espelho relembra a coreografia das mãos, tocando suas castanholas. Ele cultua personagens históricas, que classifica como aristocráticas, Francesca Da Rimini, vítima de um casamento arranjado e um marido horrível, comete adultério e vai, com seu amante e cunhado Paolo, para o segundo círculo do inferno de Dante, condenada a jamais repousar os pés no chão. Lucrécia Bórgia que ele considerava vítima dos cronistas invejosos de sua beleza e fortuna. A família Médici, de Florença era a sua favorita. Escreveu ao longo de sua vida, cerca de trinta mil páginas, contando as histórias dessas vidas. De uma nobreza hoje morta. Todos inapelavelmente mortos, exceto para ele. Eles trocavam idéias a cada final de semana, quando levava sua obra para tomar sol. Nada que se passa no mundo exterior o interessa. Ele vive das suas recordações fragmentadas de um passado atemporal. Está alquebrado, isolado, ilhado, parece um ser esvaindo-se em areia.

As anotações ficam ao lado de sua cama, ao alcance da mão. A câmara passeia longamente pelas folhas, mostrando as palavras, suas observações. Toda filmagem é feita em plano americano. Nesse momento, utiliza-se o primeiro plano.

E uma das tomadas me devolveu à Mesopotâmia: um antigo rei, Marduk da Babilônia, estava lá retratado. Ele me pegou pelo braço e me fez procurar. Volto à trilha. Eu sei.

Marduk, deus da Babilônia. Seu sacerdote Ossur-an-Marduk tivera um filho chamado Liballit Marduk. Este nos deixou o primeiro texto com a fórmula para o esmalte de cerâmica.

“O texto mais antigo de Marduk tem sido testado em tempos modernos. O texto apresenta fórmulas para dois esmaltes de cobre-chumbo, cada um começando com uma receita suméria básica para um vidro sem cor feito de areia, cinza álcali e goma.”

Fusão de areia, soda e cal.

A história tem nome: caleidoscópio. Montada com figuras, cacos, contos e contas. Ela é uma tragicomédia confusa com os mesmos atores em diferentes papéis e máscaras.

Cada letra deste texto é retirada de um único depósito transparente e finito, formando palavras, e estas, dependendo da ordem, como são encadeadas, formam textos diferentes. Seus significados serão diferentes. O sentido muda, o texto permanece.

Ainda não foi desta vez. Qual é o elo de ligação? Santiago, Galeano, Mesopotâmia, Marduk, Dante, Santiago, Incas, Astecas, vidro, areia, soda, cal, esmalte?

Mais um filme.

Franz Biberkopf em “Berlin Alexanderplatz”, personagem de olhos vítreos. Olhos de quem não sabe o que está acontecendo lá fora. Segue uma lógica interior; ele busca as relações, não as coisas. Mata e é preso. Preso por quatro anos. Ao sair, não compreende a diferença entre um ambiente e outro. Promete jamais ser desonesto novamente. Assistimos à fragmentação do ser no decorrer do filme. Literal – perde um dos braços em um acidente – e emocionalmente, ao somar as perdas que obteve na exaustiva viagem da sua existência. Ele permanece inteiro, mas a luz parece atravessá-lo como a um vitral. Os olhos faiscantes, e o ambiente todo diáfano, salpicado de cristais dá uma translucidez bela e nauseante.

Abro Flaubert, leio: “Espelho = é perigoso pegá-lo.”

O espelho cai e se quebra em mil pedaços. Cada pedaço é feito de areia, cal, soda e prata. Cada texto é feito de sentidos, palavras e letras. O filme é feito de quadros, velocidade e edição.

É necessário tirar um elemento do espelho para que sejam simétricos: a prata, por exemplo. Teremos sem a prata, o quê ? Areia, cal e soda, componentes do vidro. Espelho quebrado e sem a prata – que nos reflete – é o vidro.

O vidro e o ouro têm a mesma idade histórica, por volta de quatro mil anos antes de Cristo. O tabuleta babilônica de Marduk data de mil e seiscentos anos a.C e o texto mais antigo chinês é da dinastia Hsia de 2.205 – 1766 a.C. Devemos observar, entretanto, que quinhentos anos de diferença entre essas datas são equivalentes ao erro de um dia moderno. Investiguei que a obsidiana é chamada também de vidro vulcânico. Tudo faz sentido, nada faz sentido.

A sabedoria diz que a mãe é sempre inteira, o pai apesar de inteiro, corre um sério risco de se quebrar. A têmpera do pai pode ser muito boa, mas um golpe bem aplicado será o golpe no tendão. Aquiles sofreu o seu. O pai sofrerá o dele.

Então: a mãe é ouro, o pai é vidro.

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