A Paixão Segundo um Homem Casado

de Lúcia Bettencourt

Como não entendo? Entendo tudo….

O sarcasmo e a dor . O sarcasmo. Aquele tom meio zombeteiro, afrontoso, áspero como caju com cica, que não sai da garganta, que prende a saliva e não deixa a língua escorregar por entre os dentes, que torna as palavras pesadas, como um carregamento de pedras na boca de um gago. E a dor. O grito engolido, as lágrimas que já não vinham mais…

Vai. Pode ir. Vai fazer seu papel, cada qual com seu destino, se você está destinado a isso, de que adianta eu te alertar?

E eu vou. O papel? Ela achava que eu faria o papel de palhaço, era isso. Mas eu não sou palhaço, eu vou porque preciso ir para perto dela, preciso de seus olhos desfocados, de seu riso. Preciso acreditar que um dia ela vai repousar a cabeça ao lado da minha, com as coxas molhadas de esperma, os olhos úmidos de prazer. Preciso pensar que falta pouco, que finalmente ela deixará o riso de lado e colará os lábios, finos, — frios, talvez – na minha boca ávida. Preciso acreditar que nas entranhas dela meu esperma não se transformará em monstros ávidos, insones, com os meus olhos ou os meus poucos cabelos, será apenas uma nuvem de prazer, secando em fios que escorrerão por entre suas coxas e soletrarão delícias, prazeres, a palavra proibida. Eu vou, mesmo que por uma hora, mesmo sem a esperança de tirá-la do meio dos outros olhos cobiçosos, que escorregam de seu rosto e caem por dentro de seu decote, um decote que revela seu peito magro, quase sem curvas, quase infantil. Infantil, mas nada inocente, pois eu vejo, eu percebo que o que ela me nega, — por capricho, será? – oferece a outros e outras, debruçando na mesa de amigos incomuns.

Como não entendo? Já entendi tudo… Mas isso vai te custar caro…

É uma ameaça, ou seria um aviso? As palavras com cica perturbando o gosto da cerveja, que custa a descer. A aguda consciência de minha barriga, que se destaca entre os corpos jovens dos rapazes que a rodeiam, não pelo seu sabor acre, de fruta verde, mas para me impedir de chegar perto de seus olhos indefinidos, de cores desfocadas, de pálpebras avermelhadas. Dou um gole na cerveja e procuro uma frase interessante, preciso demonstrar a sabedoria de um homem maduro, a experiência de um professor que poderá garantir a ela o futuro de fama e de glória que ela espera alcançar, com as páginas amarfanhadas em que me mostra os versos que escreveu para outro, talvez para aquele de óculos, com ar satisfeito, que no outro dia disputou comigo sua atenção, até que finalmente desistiu, e saiu. Mas talvez ele não tenha desistido, talvez tenha sido ele o autor do torpedo que ela se apressou a responder, virando o corpo, escondendo o texto iluminado no celular, zelosa. E eu não pude ir embora, mesmo sabendo que a outra estaria em casa chorando e que jogaria mil vezes em minha cara suas palavras sarcásticas, feridas e ferozes. Mas não me importava saber o futuro certo, o que eu não podia era deixar que o futuro incerto com a menina-mulher se transformasse na suspeita de um arranjo com o outro, que não podia lhe oferecer o brilho da glória, mas que podia ofertar os braços na noite longa e fria da cidade estranha, a ela, tão menina e tão distante de sua casa.

Vai custar muito caro. Vai corroer a tua dignidade, vai te transformar num estranho perante tua própria família, te afastar dos teus próprios filhos…

As ameaças voltam, como ondas de azia que invadem minha boca e me dão desejos de vomitar, toda vez que surpreendo os olhares furtivos de cumplicidade entre seus olhos claros, desfocados e os olhos castanhos e cientes da amiga. Ou seria sua amante? Pois já me disseram que a outra é que a instiga, que provoca, que a desafia a ligar para mim e depois zomba, tripudia, manipula ao me ver chegar esfaimado e sedento, com um sorriso no rosto, composto de forma a me deixar com um ar superior, de quem resolve, de caso pensado, a cometer uma imprudência para se divertir, mas a imprudência não é voluntária, é apenas o sinal desesperado de minha paixão, acorrentado que me sinto ao desejo por aquele corpo que talvez nem seja tão atraente, seu corpo magro, quase infantil, seus olhos fugidios. E eu apuro minhas frases, faço comentários cada vez mais inteligentes e argutos, me vejo brilhar, mas brilho sozinho, no vácuo, pois ela não tem ouvidos para as coisas que tenho a dizer. Ela só me escuta, vagamente, quando faço promessas relativas a ela, a seus versos satânicos, ao livro que eu talvez publique e ao qual ela condiciona sua atenção, numa troca, desigual. Ela ganha a imortalidade – é o que ela, em sua juventude, pensa que o livro garante – e eu ganho o fugidio prazer de conhecer seu corpo, de penetrá-lo e de nele escrever, com sêmen e saliva, alguns gemidos de prazer. E não lhe importam as coisas brilhantes e tristes que lhe digo, não lhe importa o sentimento que banha cada frase que sai de minha boca, frases vestidas de festa, com seus enfeites e suas metáforas brilhantes, adornos inúteis para quem só sente prazer nos dizeres chulos e banais proferidos por lábios mais jovens, referidos por corpos mais fortes, queimados de sol, com cheiros matinais. Meu corpo emagrecido põe em evidência a barriga protuberante que na idade em que eles estão eu também não tinha. Eles serão como eu, em mais cinco, ou dez anos, estaremos igualados nos cheiros e barrigas, nas linhas que marcam os rostos, revelando as estratégias de nosso conformismo, de nossas artificiosas maneiras de encobrir os fracassos. Ela já não me escuta, seu pescoço se dobra para deixar seu ouvido frente à boca da amiga, que, com certeza, destila venenos falando de mim… E ela ri, umedece os lábios e ri, com as narinas fremindo, como se estivesse querendo sorver o hálito de chocolate da amiga – ou seria da amante? – e ela se volta para mim e pergunta, zombeteira, se não está na minha hora, se eu tenho licença de minha mulher para ficar até tão tarde na rua, e eu caio na armadilha, respondo que não preciso de licença de ninguém, que eu sou livre para passar minhas noites do jeito que quero, na companhia que preferir, mas já não estou mais ali, vejo, no lugar de seus olhos, outros olhos que parecem com os meus, e que se abrem desmesurados ao ouvirem meus gritos impacientes, e que se enchem de lágrimas, e os meus olhos então se enchem de lágrimas e eu choro, e me envergonho de minha fraqueza, e peço mais um chope, mas o gosto da cerveja se mistura ao das lágrimas e do muco que engulo desesperado, torcendo para que ela pense que meu rosto está molhado de suor e não de lágrimas, e ela se afasta e senta no colo de um outro, que ela acabou de conhecer ali, há dois minutos, e passa os braços em volta do pescoço dele e pergunta se ele a levaria para casa, e eu digo que estou saindo, que dou uma carona para ela no meu carro, importado, com ar condicionado, mas ela ri e diz que quer ser levada para casa no colo como um troféu, e que eu já devia estar em casa, em meu pijama listrado, com meus chinelos rider, dentes escovados para dar o exemplo, deitado na cama onde crescem as urtigas dos desejos nunca saciados….

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