Marco Aurélio Cremasco
Seria o último cálice – prometera-se. Recompôs-se, esperou anoitecer para sair. As pessoas viraram os rostos, transpirando ojeriza. Vislumbrou uma jovem, seguindo-a até a floricultura. Ao vê-lo, levou a mão à boca como para impedir as entranhas abandoná-la. Talvez a roupa? Entrou em uma loja. Não entendeu a razão de vendedor algum procurá-lo; o contrário: deram-lhe as costas e, calmos, deixaram o salão. Apanhou um blazer, pois não queria mostrar as chagas que, inexplicavelmente, brotaram na altura do pulmão. Buscou o banheiro. Encontrou alguém, mergulhado a face na água corrente da torneira ou na própria urina (não se sabe), que levantou a cabeça, aspirou e disse envergonhado ter esquecido de acionar a descarga. O senhor está bem? – perguntou. Notou-o cego. Magoou-se com o silêncio, como antes entristecera-se com o repúdio da florista e do lojista. Aflito, esgueirou-se na multidão, foi a um petshop na esperança de algum sorriso, quiçá, de um poodle. Cães, gatos, periquitos entraram em alvoroço. Tomou um pequeno cágado que, imediatamente, refugiou-se na carcaça como se dissesse faça o mesmo. Seguiu o conselho do quelônio e retornou para o apartamento. Banhou-se como quem, batizado, purifica-se. Dormiu envolto em jupiás. Acordado pela diarista zelote, sentou-se à mesa posta: café, suco, pães e o jornal. Folheou-o e deparou-se com a notícia: o monstro voltou atacar. Dessa vez não perdoou sequer os animaizinhos do shopping.