A Madona de Piabetá

De SUSANA FUENTES.

A mulher nos seus sessenta e cinco anos desceu do ônibus feliz: já não pagava a passagem. Com este trocado tomo um café, pensou à vista de algumas moedas no fundo da bolsa. Não precisava da nota de dez, dobrada num bolso com zíper à parte. Catou o trocado e pagou o café no restaurante ao lado da baía, de onde avistava a praia. Colado ao céu um azul macio soprava a brisa do feriado. Num dia como o de hoje, ficar em casa nem pensar… saiu-me caro o café, mas caminho na praia e deixo o aborrecimento de lado. No restaurante, a demora para servir o café. Além do espanto:

— Só um café, senhora?

Aqui também já aprenderam a falar assim, ela pensou. Sim senhor, sim senhora. O tom impessoal às vezes impaciente, às vezes sem cuidado. Ainda se fez de indefesa:

— Só um café, tem problema? Sento-me logo aqui…

E passou por entre as cadeiras e a gente, famílias reunidas, pai, mãe, avô, sobrinho, bolo de aniversário, e alcançou a mesa esquecida num canto, pequena ilha, abandono cercado de ruído por todos os lados. O café pagou o preço de seu pedido inusitado. Fora de hora, para além da procissão dos pratos, fora da fila do cardápio, sem nem o docinho da sobremesa.

— E o meu café?

— Já está vindo, senhora.

— …

Dez minutos, três gaivotas, quatro moças de biquíni, um menino com ar de tédio acompanha o vôo inesperado de uma delas sobre a mesa, fugiu da abelha com um grito. Os garçons são solícitos com as moças, riem, ali sorriem, a outra mesa, às moscas. A chegada do café espanta algumas, enfim.

O café. Frio ou calor, não importa, o café quente é bem-vindo. Até o pingo de leite pode ser gelado, o que vier está bom, com adoçante em pó, não tem, só de gotas?, ah é pior, açúcar então, eu prefiro.

O açúcar vem de outra mesa. Sob a mira de alguns olhares severos.

O gosto de café na boca, um certo amargor pela demora, a conta, finalmente. Deixou os trocados na mesa, caminhou em direção à praia, parou no degrau de cimento fincado na areia. O dia ainda estava ali. Enquanto houvesse luz estava feliz, luz e esse azul macio a revirar a pele e remexer os cabelos. Como demoram para trazer um café, a conta nem se fala, ali já não volto mais.

— Olha a tapioca fresquinha!

— Venha, dona, tome sua água-de-coco.

O homem do coco ficava em baixo, ao lado da escada que descia até a areia. Levantou a tampa da caixa de isopor e apontou para meia dúzia de cadeiras no alto, enfileiradas no calçadão, todas abertas, listradas e viradas para o mar.

— Sente aí, dona. Escolha o coco e a cadeira.

— Sentar-me? E a cadeira, quanto vale?

— Cinco reais.

— Ah, de pé está bom.

Esse aí já me chamou de dona… gentil, não tenho do que me queixar.

Os dez reais continuavam intactos na bolsa. Tapioca era demais, água-de-coco vai tirar-me o gosto do café, ando um pouco por aí, só quero ver a vista mesmo.

Súbito, a bandeira ao vento. Era uma vendedora em sua caminhada na areia, vendedora de cangas, saídas de praia, levava entre os panos coloridos a bandeira… Tinha em casa uma dessas, já puída, velhinha, usava para cobrir o baú de palha no banheiro. A bandeira do Brasil. Ali, no alto, estendida ao vento, a bandeira verde e amarela, com raios de purpurina em prata.

— Oi, pode abrir esta aqui? Quero ver mais de perto…

A purpurina prateada quebrava o verde a pinceladas.

— É a bandeira, doze reais, está um capricho só, mas tem também esta de peixe e conchinhas e desenhos do mar.

A vendedora estendia a canga, o vento empurrava outra, ela aproveitava o embalo e exibia a exuberância dos panos, canga sobre canga nenhuma parava, rodopiavam com o vento. A moça era bonita, esbelta, de longos cabelos louros queimados de sol e água oxigenada. Nos seus trinta e sete. E mais sete, talvez, acrescentados pela vida.

— Quanto é mesmo que vale?

— Doze.

— E com desconto?

— Dez eu lhe faço.

A vendedora estendeu novamente a canga num dos braços, com a mão livre segurou a borda tremulante. A freguesa num muxoxo sacode os dedos no ar, sem o ímpeto de seu primeiro espanto:

— Ah, vou pensar, depois eu vejo… Outra hora!

Antes de virar-se de vez, parou de novo, encantada, os mesmos dedos correram sobre a superfície da tinta irregular.

A vendedora então com o ar mais natural desceu a mão na cintura, a olhou firme e soltou numa voz decidida:

— Leve por dez, mulher!!

Mulher. A palavra soou legítima. Na sua voz convicta, a vendedora sem loja, sem balcão, sem treino, manca na areia, ainda assim, firme sobre os próprios pés, compensava o ziguezague das ondas. De pé na areia, com a bandeira na mão, a mulher nos seus sessenta e cinco anos, de novo inteira, restituída pela palavra: mulher, apenas. Tônica respeitada na última sílaba para vibrar o “r”. O risco de engolir o “r” é daí perder também o “h”. Na palavra dita com todas as letras, ali se viu inteira, sem estabelecer fora e dentro sob a mira de um rosto reticente ou implacável que diz: você não é um de nós. A de asas de pano afastou-se no balanço dos pés, era como ela, mulher também. Na negociação, contou sem rodeios: morava longe. O tom não era de lamento, porém. Não era uma queixa. Era um fato, um dado importante, acompanhado do orgulho de quem percorre longas distâncias.

— Sabe de onde venho para vender aqui? Lá de Piabetá! Lá é longe mesmo, três conduções para vir trabalhar.

Disse isso e seu rosto iluminou-se, apareceram as covinhas e o canto dos olhos riscado pelo sol, olhos que sabem fitar, não medem você, pelo contrário, se caem em você, caem em si também, como se ver fosse… rememorar. Olhos que ao ver acabam por se lembrar… de alguma coisa que é deles também.

De pé na areia, com a bandeira na mão, a mulher nos seus sessenta e cinco anos, de novo inteira, restituída pela palavra de outra. A vendedora ambulante afastou-se com a nota de dez pratas dobrada entre os dedos, suas asas de pano sopradas ao vento, peixes, conchinhas, caranguejos e o verde e amarelo da bandeira, a bola azul trêmula de céu, macio entre as nuvens e os borrões de purpurina prateada em cola de tecido Polar.

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