A-vaca-lhada

De LÚCIA BETTENCOURT.

— É dois real! Só dois real, com gliti, dois real na promoção!

O turista olhou assustado na direção do homem de bermudas e sandálias gastas que ostentava nas mãos uma série de escalpos de todas as cores: preto, ruivo, dourado, azul metálico, rosa choque.

— Aproveita, dotô.

Ele abanou a cabeça energicamente, e fechou a cara, como lhe haviam ensinado no consulado – “evite olhar diretamente nos olhos dos locais, e, caso o faça, feche o semblante, desencorajando o contato” – mas a tática não resultou. Frente a sua negativa, o homem abriu um sorriso falho e redobrou a insistência, achando que a recusa se devia à falta de comunicação.

— Só dois real, tu. TU —, repetiu, mais alto, mostrando os dois dedos em V e depois esfregando o polegar contra os dedos médio e o indicador, no gesto universal para dinheiro.

O turista se afastou, desistindo de fotografar a vaca, que se exibia num vestido imitando os desenhos da calçada de Copacabana, além de usar meias arrastão , baton e peruca. Uma vaca coquete, cheia de trejeitos, numa cidade cheia de mulheres usando o mesmo tom de baton e o mesmo corte de cabelo. Afastado, ficou olhando disfarçadamente, esperando que o homem levasse seus escalpos para longe da vaca.

Mas o homem não desistia, sempre com a mesma cantilena:

— Dois real! Só dois real, com gliti, dois real na promoção!

O turista resolveu sentar no bar da praia e pedir uma cerveja, usando o pouco português que já havia aprendido naqueles três dias de praia.

— Uma , uma… — droga! Ele havia esquecido como é que se dizia cerveja, mas não importava, ia pedir em inglês mesmo, pois na praia os locais pareciam entender sua língua. — Uma bier, porr favorr.

— Malzbier? — ecoou o garçom.

Ele abanou a cabeça fazendo que sim, achando engraçado que o serviçal tentasse imitá-lo. Eram mesmo muito primitivos ali, com essa necessidade de imitar todos aqueles que achavam superiores.

O garçom voltou com a garrafa de cerveja, depositou na mesa e saiu sem servi-lo. Resignado, deu de ombros, e pegou o copo de vidro grosseiro, inclinando-o levemente, e colocando o gargalo da garrafa bem lá dentro, para servir devagar, sem fazer muita espuma. Fazia isso olhando para o garçom que se afastara e que agora parecia evitar seu olhar. Quando olhou de volta o copo, percebeu que a cerveja era preta. Indignado, fez sinal para o garçom, mas este havia se eclipsado.

Voltou a olhar a vaca, enquanto engolia, a contragosto, os goles amargos da cerveja. O ambulante agora estava ao lado de uma mulher com uma cadeira de praia e uma maleta. A cantilena era a mesma:

— Dois real! Só dois real, com gliti, dois real na promoção!

Mas, agora, a voz esganiçada da mulher secundava:

— Maquiage… Copie a maquiage da Vaquinha!

Uma família se aproximou, aproveitando o fresquinho da tarde. Iam passando, mas a menina mais nova se deixou seduzir pelos brilhos e a oportunidade de ficar parecida com a Vaca. O pai quis arrastar a criança, mas a menina gritava, dava show. Vencido, ele negociou com o ambulante dos escalpos e a mulher da maquiagem. A menina mais velha também quis se fantasiar, escolheu a peruca rosa-choque. As duas ficaram assustadoramente parecidas com a vaca, e se postaram uma de cada lado da escultura. Nisso apareceu mais um ambulante, um velhinho com aventais que imitavam o vestido da vaca. As meninas exigiram os aventais para tirar os retratos. Várias pessoas haviam parado, vendo a transformação das crianças em vacas-mirim.

O turista já não conseguia ver o que se passava próximo à escultura. Terminou o último gole da cerveja preta e meio morna, chamou o garçom para pagar. Desta vez o empregado não desviou o olhar e lhe estendeu logo uma nota com três vezes o valor da garrafa. O turista, impossibilitado de discutir o preço, pagou o que foi pedido. Levantou-se e foi olhar o grupo que se atarefava, com clientes que surgiam de todos os lados.

Homens e mulheres, crianças e velhos, todos queriam se fantasiar de Vaca. Era assustadora aquela fila de pessoas cobertas pelos aventais com os desenhos da calçada, as cabeças ostentando perucas brilhantes e bocas e olhos pintados exageradamente como os da vaca. O turista se deixava ficar, fascinado com as metamorfoses, sem se importar com os encontrões e esbarrões que sofria de pessoas que, sôfregas de se disfarçar, se empurravam umas contra as outras. Depois de acompanhar a metamorfose de um velho careca e barrigudo, de uma jovem com sandálias altas e pernas roliças, e de uma criança relutante, o turista resolveu voltar para o hotel. À sua volta estava uma verdadeira multidão. Ele abriu caminho, tendo que usar os cotovelos. Fora do círculo, ajeitou a roupa. Deu por falta da máquina fotográfica, que usava pendurada no pescoço, e era dessas modernas, fininhas e leves, digitais. Apalpou os bolsos e percebeu que tinha ficado sem a carteira. Indignado, olhou o grupo com raiva, rosto vermelho e afogueado. Procurou um policial com o olhar, mas não viu nenhum. Quis voltar ao centro da roda, ver se conseguia identificar o bandido que o roubara, mas a multidão estava cada vez mais compacta ao redor da vaca e dos seus exploradores.

Indignado, frustrado, começou a se afastar, quando o garçom se aproximou e tocou-lhe o ombro. O turista deu-lhe um safanão, mas foi desarmado quando olhou para o garçom e viu que este lhe sorria e estendia a máquina fotográfica e a carteira de dinheiro. Percebeu que ele é que tinha deixado seus pertences em cima da mesa. Envergonhado, sorriu e pegou as coisas. Ficou sem saber como agradecer, hesitante. Depois, numa mistura de palavras e gestos, propôs tirar uma foto, ele, o garçom e a vaca. O garçom escolheu a peruca azul. Ele teve que ficar com a rosa-choque.

.


%d blogueiros gostam disto: