A.A. ou Apaixonados Anônimos

De DANIELA MENDES.

[Subiu na tribuna, puxou a saia justa como se fosse ficar menos indecente]

— Gente, eu vou ler porque eu sabia que neste momento me faltariam palavras: “Creio ser possível ao ser humano ter os seguintes vícios: álcool, fumo, chocolate, leitura, arrogância, sexo, café, gente, lua e charlatanismo. Claro, se o ser em questão for suficientemente forte para tanto”.

— Então, minha senhora… — disse voltando-se para a mulher de cabelo ensebado e sem corte na primeira fila — … Devo adverti-la: afaste-se deste manuscrito o quanto antes e vá procurar ver a cabeça de um bacalhau, um pé de jujuba, a cópula de uma borboleta, um eunuco e sombras de fadas, caso você não possa aceitar a idéia de um ser repugnantemente belo como o pênis de um cavalo. Pronto! Já disse tudo. Eu sei, não se começa uma história pelo fim. Mas o mais importante não deveria estar na superfície? Não são assim os leads de jornais? Eles já contam tudo no primeiro parágrafo para que a notícia chegue em você antes que vire desenho de embrulho de peixe. Aaaah, quer saber? Eu não vou ler mais nada não.

[Desceu da tribuna, foi até uma bolsa que estava sozinha numa cadeira ao lado da senhora, fuçou, fuçou, até encontrar um cigarro amassado e um isqueiro de metal. Acendeu, jogou o isqueiro em cima da bolsa e voltou para a tribuna. Ajeitou a saia.]

— Aaaaaaaaah… Deixe-me contar uma coisa: meus mamilos, meus mamilos estão crescendo. Sim, eu me chamo Rosário. Nããããão! Eu não sou uma mulher. Se eu fosse seria mãe, mãe e dona de casa. Acordaria mais cedo, jogaria minha família na rua e daria instruções à empregada. Pois é, se um marido não pode pagar uma como vai querer manter a esposa em casa? Tudo engatilhado, me fecharia num quarto para alimentar algum vício ilícito. Depois leria um livro até a hora do almoço, quando todos voltariam famintos e agitados. Eu então fingiria estar também animada com suas novidades patéticas do meio dia. E antes que eles percebessem daria um jeito de estar livre deles novamente: natação para o João, inglês para a Marina, trabalho para o benhê, já que a tarde precisaria do carro para vadiar. Gente, por que as donas de casa adoecem?

[Pausa para um trago profundo e reflexivo]

Mamãe sabia da minha desgraça já na maternidade. Viu lá meu parafusinho e sabia que era frouxo, que cairia um dia feito umbigo e convenceu o Papai deixar meu nome como Rosário com desculpa de ser promessa. Deixa, não julgue Mamãe. Nossa Senhora já suportou coisa pior. E o nome foi só para facilitar as coisas. Acredite, facilitou. Quando você pensa que está sendo expulso de casa é que na verdade está sendo plantado. Acreditem: minha bunda doeu muito mais por outras coisas do que pelo chute do meu Pai.

Mas vocês não vão acreditar nisso né? A gente é carente. Aaaaaai, tô confusa! Difícil discursar.

[Pausa para outro trago profundo. Jogou o cigarro que estava pela metade no chão e apagou com o salto]

Então, meu mamilo começou a crescer… E então você pensa que pode virar mulher assim ó! [Estalou os dedos] Na insistência… Aí foi quando a Darlene me levou para o pronto socorro aquele dia. Porque eu bêbada esqueci que o uísque era paraguaio e ó, me afoguei! Daí aquele médico horroroso me disse que eu não estava virando mulher… Que aquilo fazia parte da doença e que eu tinha que mudar os meus hábitos se quisesse sobreviver… [chorando emocionada] Saí do PS putíssima com Deus! Então minha benção era doença? Eu tão devoto e Ele só sacaneando. Pior do que aqueles filhinhos de papai que jogaram extintor de incêndio uma vez no meu vestido alugado.

Foi eu blasfemar e tropecei nele na sarjeta… Tropecei mesmo cara! Não! Em Deus não. Tava com os olhos inundados, não vi a porra daquele homem lindo. Levei para casa, né? Porque Deus pode ser sacana, mas é justo. Cara, foi salvando aquele homem que eu me salvei… [olhou para o chão e enxugou as lágrimas no braço] Olha, eu nem sabia que felicidade era aquilo, entende? Tava até pensando em adotar um filho pra gente! A doença não melhorou não, mas… Eu tava tentando tratamento no SUS sabe? Claro, não contei nada para ele. Queria poupá-lo de uma dor. Rá! Dor, dor…

Ai, que eu tenho ódio quando sou patética! Pior inferno para um ser humano é ser patético… Resumindo: [pausa, respirou fundo] um dia, a gente voltando da boite ele disse que queria parar de beber. Aí eu… ai que ódio!… Eu mostrei para ele esse lugar… Porque ele me disse chorando que parar era uma dificuldade para ele… E então, depois de seis meses freqüentando essa pocilga ele sumiu. Fiquei louco. Fiquei depressiva e nunca mais escutei música.

Minhas amigas já não sabiam o que dizer… “Esquece o bofe” nunca fez sentido pra mim. Eu sei que vocês sabem o que é perder tudo na vida. Eu sei tá? E não adianta alguém aqui chegar e me falar que é melhor do que eu, porque não é. Por isso eu resolvi vir aqui… Falar para vocês tudinho o mal que vocês me fizeram. Por que vocês são tudo um bando de puto… Olha, a Clete me contou, tá? Ela tava alisando o cabelo de uma mulher no salão onde ela trabalha e, por acaso, descobriu que meu bofe era casado. E aquela mulher de pixaim, a esposa dele, contou tooodo o processo! Contou, o quanto vocês influenciaram na decisão dele. Que até fizeram o coitado trabalhar de entregador no supermercado. Eu já sei onde fica o trabalho dele, vou lá acertar as contas assim que sair daqui. Mas sei que minhas feridas jamais cicatrizarão. Eu não vou mais cuidar da minha saúde, não! Eu, de certa forma, já estou até morta… E quero que vocês convivam com isso… Quero que saibam que vocês arruinaram minha vida! [E gritou] Assassinos!

[Empinou o nariz, desceu da tribuna, deu um arranco na bolsa, o isqueiro caiu no chão, se curvou para pegá-lo, deixou a saia subir, não ajeitou e saiu dali totalmente equilibrada num salto agulha.]

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