fpluvial

De DHEYNE DE SOUZA.

Ele não poderia. Nem chegou a pensar se poderia ou não, simplesmente não. Já lhe bastavam o jeans alvejado, a coberta sufocante, os livros encapados, a sopa quente, aquilo tudo que não correspondia. Sabia nadar desde girino, sentia. Que culpa tem se os bancos estão molhados, que pecado há se se percebe olhando, que poder tinha se o destino estava ali como um assento. É claro que poderia, que chovia, que a camada de ozônio comia o mundo, que se se não nadar. Ele também tinha onze anos. Como dois paus fincados no acaso. Um havia que morrer, o outro também, que culpa se. Talvez ele não pudesse talvez a cidadezinha-coberta precisasse daquilo para trocar as linhas. O que a morte senão um medo inventado. O que o céu. O que o medo senão uma invenção ressuscitada. O que o inferno. O que a invenção senão matar o tempo. O que aquela cidade. Depois de rir de sentar no banco molhado ele disse que se se morresse que não fosse uma coisa besta, mas hediondo para a cidade saber. Quiçá o mundo, ele disse e riu. Porque o destino não existe. Ele sequer respondeu, de onde aquilo. Entraram naquela coisa besta parecida com a passaginha, rio desemboco fpluvial de outra cidade. Ele insistiu, nem sei. Era o rio das almas, disseram depois, bem depois. Primeiro estuprado sangrado lautreamontianamente desviscerado. Depois pra dizerem. O que a vida senão uma versão, ele diria. O que não lhe cabe é poder.

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