Dois desertores

De LEANDRO RESENDE.

Marcela tomava banho. A água quente lhe aquecia o sangue e cozinhava a carne.

O pensamento estava em Gil, mesmo com uma das pernas sobre o vaso e os dedos da mão esquerda alisando os pêlos pubianos para facilitar a depilação. O barbeador era novo e avançava suave, abrindo clareiras e descampados. Passava o dedo sobre a lâmina do aparelho para tirar excesso de cabelos, também batia-o na palma da mão. Alguns dos seus pêlos finos e negros plainavam antes de aterrissar no porcelanato marfim. Outros, colavam à virilha, para depois escorrerem com a água rumo ao ralo.

Trocou a posição das pernas para depilar melhor o outro lado. Uma concentração oriental, para, no fim, Marcela observar seu sexo limpo como o de uma adolescente. E como uma adolescente, observava-se no espelho. E se vistoriava de-cima-embaixo-de-lado-a-lado. Nenhum pêlo naquela alva pele, apenas uma discreta trincheira precedendo uma abertura fêmea mais abaixo, com seu desenho particular e individual.

Resolve depilar também as pernas. Faria tudo para não pensar, mas o pensamento chegava logo e de novo em Gil, que – se a rotina permitir – em três horas e meia chegaria do serviço, sem limpar os sapatos, deixaria alguns papéis na mesa-de-centro e seguiria à cozinha para tomar seu copo de leite. Tinha algo sério a dizer, pensava: nossa como dizer? Gil precisa ouvir de uma forma que, nossa, é foda, como dizer? se não tem sentido o que fiz e eu mesma não compreenderia é pedir demais até para ele para qualquer pessoa é além do que se pode pedir…

Como dizer? E se já adiou por outras vezes, agora aquele olho roxo a obrigava revelar ou mentir. Frases atravessam sua razão, várias delas. Umas vagas, outras duras ou incrédulas. Elas se misturam e se chocam, formando e reformando novas possibilidades.

Seca-se. Segue até o quarto com a idéia de se maquiar, esconder ou minimizar o hematoma. Não. Impossível, ficou pior. O inchaço parece maior. Lava o rosto e já não consegue segurar o choro. Teme o fim de tudo que construíra nos últimos três anos nas próximas três horas.

***********

“Alô, Gil?”

“Sim. Quem fala?”

“Um amigo. Página nove do jornal de hoje. Dê uma olhada”, disse um homem, claramente modificando a voz do outro lado da linha, e desligou.

“Cláudia. Tem o jornal de hoje? Não. Pede para comprar um e me traz aqui, por favor.”

“Senhor Gilson, o jornal.”

“Obrigado.”

Página nove.

“Polícia desmonta quadrilha de roubo de carga. Padre é preso por pedofilia. Sargento será julgado hoje. Mulher apanha em motel e vai parar na delegacia.”

Gil lê todas as matérias. Pára na notinha do motel, no rodapé da página. “O casal José Mário Santos e Marcela Dias Nolleto…”

“Puta merda, que desgraça é essa? Não pode ser. Ontem ela estava em workshop em São Paulo. Não, não estava. Merda. Notícia no jornal…”, pensa alto.

Fecha o jornal, não termina de ler. Não consegue ficar sentado, tira a gravata, que o sufoca.
Anda de um lado para outro. Senta no canto da sala e, sem saber o que fazer, chora.

Reabre o jornal e termina de ler a nota. Agressão e quarto quebrado. Poucas linhas, não precisava de mais nenhuma palavra.

Liga para a secretária e pede para desmarcar as reuniões do resto do dia. Sai apressado, sem olhar para os lados.

Pára numa praça e fica ali, esperando o tempo passar, olhando as pessoas e carros passarem, pensando no que dizer a Marcela. Frases aceleram e param, várias delas, várias e nenhuma. Dizer o quê. Pensamentos, pensamentos. Como perdoar, como matar. Frases vagas, frases duras ou incrédulas. Todas se misturam e se chocam, formando e reformando novas possibilidades. Não tem o que dizer, mas vai para casa. Tem o que dizer, mas não vai para casa.

Marcela está nua na cama. Gil chega, não limpa os pés, joga alguns papéis sobre a mesa e vai à cozinha. Um copo de leite frio. Dois copos. Vai até o quarto. Marcela está deitada de costas, com o rosto enfiado no travesseiro. Gil pára e a olha: corpo branco, sem marcas, pernas, bunda e cintura, cabelos longos. Várias frases para dizer, mas não diz nada.

Anda no quarto como se procurasse algo. Mexe impaciente nas gavetas, atrás de frases e coragem de fazer qualquer coisa. Marcela está imóvel, vasculhando sua cabeça atrás de verdades e mentiras para dizer. Mas, nada surge.

“Marcela, vou fazer uma viagem.”

“Tá.”

“Mas eu posso não voltar.”

“Humrum.”

Silêncio longo.

“Você quer ir comigo?”

Silêncio breve.

“Não.”

“Melhor assim.”

“Tchau.”

“Tchau.”

.


%d blogueiros gostam disto: