Perdidos e Achados

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Olhou sua obra de somente seis meses e não se identificou com o homem que dormia no sofá. Um metro e noventa e quatro vazando para além do móvel. A pele negra no rosto sem expressão. Olhos inquietos sob as pálpebras.

Fim da viagem e a moça sentia-se vazia. Hope Harris – uma piscina esvaziada.

Seis meses traduzindo vinte anos.

Desceu anônima na capital. Seguiu o roteiro que se desenhava desde o seu nascimento para além do mar do Caribe.

Estados Unidos, Seattle. Uma mulher solitária. Não sabia do homem negro a quem deveria mostrar os traços da filha acabada de nascer. A solidão lhe cravara os dentes para que vivesse a inconformidade da espera. Sem se sentir viúva, não carregava certezas sobre seu homem. Ele fora a um país longínquo. Venceria um breve contrato, cinco jogos finais de um torneio. Voltaria antes do nascimento da filha. Não cumpriu trato nem contrato. Apagou os rastros.

Um dia, em crise de choro, disse o rapaz da recepção, deixou o hotel apenas com a roupa do corpo e uma sacola de pouco volume, talvez outras roupas. O motorista do táxi o deixou na rodoviária. A balconista contou ter-lhe vendido uma passagem. Normal. Apesar do forte sotaque, falava de jeito inteligível. E a gente atende tantos estranhos. O delegado ouviu do condutor do ônibus que o homem desembarcou para o almoço num restaurante de estrada. Nunca mais foi visto.

Depois de parir, Karen Harris voltou para casa.

Há vinte anos esperava a porta abrir, entrar um homem envelhecido, cinqüenta e sete anos, abraçá-la e sentar-se para viver a aposentadoria.

Hope acendeu um cigarro.

Pensava na mãe e olhava o homem no sofá. Um estranho íntimo. Vinte anos e o homem sumido até dos noticiários – o tempo implacável a exterminar marcas enquanto uma mulher, Karen Harris, mitigava obsessiva espera.

A lembrança mais antiga de Hope. A mãe diariamente a martelar – é um homem bom e deve ter suas razões, ou não deixaria para trás o financiamento da casa, a mulher, a filha, a aposentadoria, a vida regulada. Profissional, foi trabalhar. Qualquer dia volta para ajustar os desregramentos esquecidos na partida. A outra filha sequer lembra dele, muito menos da pensão que deixou de pagar por dois meses e teve que se haver na justiça. Acertou tudo. Um homem correto, de bom senso.

Hope cresceu contagiando-se na obsessão materna. Lia e aprendia tudo sobre o país longínquo. Como o pai desvendou a língua mutante, a música malemolente, a espontaneidade à flor da pele, a leveza. Tudo sabia daquela gente distante.

Desembarcou anônima e foi direto para o hotel. O mesmo hotel. Dormiu por toda noite, logo depois de dizer da chegada à mãe. O ritual do desjejum e o encontro com Alex. Good morning. Bom dia. Respondeu com sotaque. Preciso treinar.

Durante quase um ano se corresponderam e acertaram os detalhes todos. Agora era o começo.

A moça e seu caminhar longe da mãe e da segurança da casa.

O imóvel envelhecera na obstinação meticulosa da permanência. Nada podia mudar. Os móveis insistentemente reformados – sempre os mesmos tecidos e as mesmas cores. Na volta o homem reconheceria seu repouso. Karen enfrentou vendavais e tempestades, só não vendeu a casa. E acumulou o suficiente para bancar tudo o que fosse preciso. Horas, dias, semanas, meses, anos a fio de labuta. No tempo exato abriu a porta do quarto de Hope. A moça lia distraída. Chegou a hora de preparar a viagem. Hope apenas ouviu e foi dormir a sua paz.

Toda vida vivera para esse dia.

O senhor o viu chorar? O ex-rapaz se mantinha por trás do balcão. Sorriu para a moça de voz e olhos determinados. Sim, fui eu. E repetiu a história que contava há vinte anos. O homem negro cruzando o saguão sem dizer palavras, sem responder aos cumprimentos e chorando copiosamente.

Alex, não temos tempo de volta. Nosso desafio é engolir avanços.

Iniciaram a peregrinação pela capital. Colheram histórias e depoimentos. Reviraram jornais e dados policiais. Refizeram caminhos. Nada foi capaz de convencê-los, satisfazê-los. Nas mãos apenas uma história mais viva e detalhada. Agora só a estrada lhe daria respostas.

O homem negro correu o quanto pôde. Apanhava a bola no fundo da quadra e driblava os adversários. Arremessava a bola em direção à cesta e a bola nunca chegava à cesta. Meia hora de suor e fracassos. Não era o mesmo de três há anos quando virava partidas e definia campeonatos. Dezoito pontos num único jogo. Saía de quadra com o riso da vitória. Agora sua mão nada acertava. Nenhum ponto. Foi retirado por ser inútil. Do banco assistiu com olhos baços cada minuto da derrota. O adversário radiante. 77 x 60. O homem negro enxuto do suor, mas com lágrimas escorrendo dos olhos. Não falou com ninguém e procurava, já no vestiário, esconder o rosto, disfarçar a angústia mergulhando fundo no chuveiro. Desapareceu no dia seguinte.

O jipe Toyota Bandeirantes comprado por Alex – Hope mandara o dinheiro – fora preparado para uma viagem sem ciência de volta. Parou no restaurante à beira da estrada. Os ônibus estacionavam. Nenhuma notícia. Vinte anos é uma vida, tempo suficientemente para esquecimentos e fugas. Seguiram até um pouso em Correntina. Por dias perguntaram e correram becos e fazendas. A solidão dos primeiros carrascais sertanejos nada respondia. A moça sempre de calça bege e camiseta branca sem mangas nem sutiã. Sua pele clara se castigava ao sol e o protetor solar era quase inútil. O vermelho intenso dava ao seu rosto um falso ar angelical. E Alex a acompanhava em tudo. Dividiam o mesmo quarto, não a mesma cama. O rapaz segurava instintos diante da frieza calculada da moça. Despia-se frente a ele. E conversava sobre o que fazer nos dias seguintes. Uma mesa de negócios. Alex deixava o espaço dos hotéis modestos. Preciso comprar cigarros. Entrava no primeiro bar, bebia e fumava. Apanhava uma puta qualquer e a trepava com fúria e camisinha. Voltava para o quarto e encontrava Hope dormindo de calcinha aerótica e camisola diáfana. Deitava na cama ao lado e procurara o sono. Viera para ganhar o necessário e começar um novo futuro. Os dólares recebidos regularmente aos sábados guardava no fundo da mochila e deixava que Hope pagasse todas as outras despesas. Foi o acerto. Como certo ficou que teria o que restasse do jipe na volta à capital. O suficiente para se fazer independente; o sonho de toda uma vida. Pensou também em reforçar o inglês, mas Hope insistia em condicionar-se. Menos nas discussões quase sempre acaloradas. Ela voltava à língua materna para que os estranhos não entrassem no embate.

Tinham desistido de Ibotirama. Por dias suportaram a brisa calorenta do São Francisco, viajaram por fazendas e barrancos sem encontrar maiores informações do negro de um metro e noventa e quatro e riso largo. Uma velha lembrara de alguém assim. Há anos o patrão contratou um homem. Mandou embora porque não sabia capinar.

Noite em um hotel modesto. Hope tirou a roupa e entrou no banheiro. Com a porta aberta ditava planos. Seguir em frente. Saiu do banheiro ainda se enxugando. Olhou com frieza o corpo nu de Alex. O rapaz entrou no banheiro. Saiu em busca de cerveja e putas. Bebeu bem, mas não encontrou as mulheres. No quarto viu Hope de bruços e camisola. Tirou a roupa e deitou junto à moça que acordou entre surpresa e resignada. Você tem camisinha? Treparam com plenitude; ele por paixão e desejo, ela por necessidade. Dormiram. No desjejum, em inglês, restabeleceu a ordem. Aquilo da noite foi curiosidade, instinto. A partir de agora tudo volta à normalidade. Alex acatou.

Lençóis era uma cidade fechada no tempo; o casario antigo do século XIX quando o ouro e o diamante jorravam de suas grutas e minas. Secaram as riquezas, ficaram as lembranças. Chegaram gentes na espera de paz. Um novo apogeu.

Hope não sairia dali. O tempo todo dizia da certeza do fim da busca. Alex; desanimado, cansado; duvidava de tudo, mas a moça se apegava às palavras de um dono de bar. Muitas vezes passa aqui um errante que parece com esse aí da foto. Está muito mais velho e sujo. E todas as noites Hope renovava as esperanças numa neurolinguística pessoal. Amanhã o encontro. E passava o dia caminhando. Alex a acompanhava bebendo cerveja. Tangia o tédio.

Sozinha no bar. De costas para a porta ouviu um sotaque estranho. A moça bonita não pode ajudar o velho? Senhora de todas as certezas, se voltou na direção da voz. Ele viu familiaridade naquele rosto vermelho de sol e esperança. O rosto de uma mulher antiga. Travou o riso. Eram duas surpresas. What’s your name? Sua lembrança mais profunda reconheceu o idioma. E uma lágrima limpou a face suja de vinte anos.

No dia seguinte Alex acordou sozinho. Correu para saber notícias com a dona do hotel. Sua namorada está com outro homem no quarto 12. A experiente senhora não entendeu o riso aberto com que ele cheirava a liberdade.

Conheceu o objeto da procura no café da manhã. Limpo, barba bem feita, roupas novas. Não foi apenas na aparência que mudou. Vinte anos andrajos lhe roubaram os modos. Dispensava os talheres e tinha avidez por tudo. Misturava idiomas e pulava arremessando bolas imaginárias. Ria e arrotava com espontaneidade. Contava de cenas antigas. Os subúrbios de Nova York e os sertões da Bahia. Um duelo surdo visitava sua cabeça.

Durante três dias Hope não deixou o sozinho.

Voltaram para a capital com Alex em silêncio.

O vazio de Hope olhava o homem no sofá com mais cansaço que piedade. Alimentava dúvidas. Pedira à Embaixada para repatriá-lo. Um jornal jogado no chão manchetava: Americano sumido há vinte anos reaparece como mendigo na Bahia.

Solitária a moça fumava pensando em Alex. Ele se fora depois do adeus. Jamais o encontrarei e resta-me pouca energia para uma nova busca.

Hello? Mother? Sim, o pai está comigo, mas acho que ainda não é tempo de voltar. Encontrei muito mais que apenas um homem.

Do outro lado da linha um silêncio de quem perdeu a razão de ser.

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