Desaparecido

De NEREU AFONSO DA SILVA.

Há, eu garanto, um forte desejo que brota pelo menos uma vez na existência de qualquer ser humano saudável: o desejo de desaparecer do mapa.

Em geral, as razões que regem o nascimento de tal desejo se parecem. O sentimento inexorável de que se vive uma vida completamente estragada é uma delas.

Eu sou daqueles que sentem isso. Três da tarde em casa: não faço nada, é verdade. Apenas vejo as horas passarem fraquinhas, incapazes de me preencherem. Para ser exato, confesso que às vezes me levanto para tomar um copo de leite frio, e só. O incrível é que aos 15 anos já entendera tudo isso; entendera também que os anos seguintes [22 já se passaram] não seriam nada além de uma desnecessária e maçante reprise. Mas…

É que tenho outra coisa para confessar.

É bem provável que a ansiedade, a maldita ansiedade que me prostra perplexo diante de toda escolha, tenha retardado minha decisão de desaparecer. Ser ou não ser? – é tão difícil a serenidade!

O máximo que consegui, nos dias bons, foi sorrir de minha hesitação em saber se, no meu caso, o maior castigo é morrer ou ter nascido – fato que certamente pouco deve lhes importar.

Concordo que o silêncio nos aproximaria mais: “a aparente não-comunicação de nossas presenças mudas”.

Vou beber mais leite, já volto.

Voltei [revigorado, eu, el grande ator sem palco].

Em algum momento houve – sempre há! – um divórcio qualquer. Com isso vocês concordam?

Por essas e outras razões multiplicadas por mil, deixei de vez de esperar. Agora estou seguro, infelizmente seguro de que de uns anos para cá a vida, ou aquilo que por preguiça ou imprecisão resolvi chamar de vida, soçobrou minha confiança nas coisas boas.

Fiquei com problemas ditos de saúde que me obrigam – me obrigariam, porque nunca tomei – a tomar remédios.

Adoraria avançar assim mesmo, mas no meu caso não é possível. A noção de avançar minguou tanto de minha fé que um dia, lá atrás, cuspida e destroçada, desencarnara de mim para um daqueles longínquos para sempre.

Cancelado eu já era, agora retiro-me [desfamiliarizei-me com meu mundo, já deu para perceber].

Com sua licença.

Deixo, para quem quiser, um copo de leite pela metade e, nos desaparecidos do jornal de amanhã, os 37 anos, 78 quilos, 1.80m, cabelos negros e olhos castanhos-vazios de um homem que não acharão mais, nunca mais.

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