Leão na cabeça!

De RONIZE ALINE.

Pode apostá, fio, é leão nas cabeça!

Zinho olhava cabisbaixo para tia Donguita com medo dela perceber que seu acreditar era desacreditando. Sabia que os palpites da velha eram tão fortes quanto sua rezas, por isso o movimento no seu barraco era sempre grande, fosse por causa de um sonho ou de uma necessidade. Mas leão não era bem o que tinha em mente. Entrou no barraco vermelho com janelas amarelas e brancas, como as cores da escola, só para ter uma confirmação, porque o palpite já trazia na cabeça. Não tinha erro, o sonho era bem claro, só podia ser cobra. E agora a tia vinha com essa de leão, não podia ser.

Será, tia? E se o bicho for…

Ocê tá aduvidando de mim, é? E desde quando eu errei um parpite? Já dei muito dinheiro pra esses moleque que vêm aqui cheio das idéia e quando faz um trocado nem lembra da tia. Num qué acreditá, num faz mal, mais tamém num precisa mais vortá.

Zinho saiu com um aperto no peito sem saber se era prenúncio de coisa ruim ou simplesmente por ter contrariado a velha que sempre que lhe acolhia quando, pequeno, fugia de casa para o pai não descontar nele a amargura da bebida e da vida. Tia Donguita pegava-o pela mão e deitava-o na cama do filho, que ela dizia ter ido “pro estrangêro fazê fama” mas o povo todo sabia que tinha ido mesmo era para três palmos abaixo da terra e da vergonha de ter filho bandido.

Leão? Não fazia sentido…o sonho era com o Sola, aquele maldito que trapaceou na seleção de mestre-sala e roubou seu lugar no espetáculo. Era eu que tinha que estar lá, ensaiando os volteios e não martelando dedo e me acabando de trabalhar no barracão pra no dia fazer o quê? Empurrar carro alegórico avenida adentro em vez de ajudar a escola a ser campeã. Nem sequer ia poder admirar a Ritinha, sua pequena que fazia bonito como terceira porta-bandeira e ia receber os aplausos de mãos dadas com o Sola, aquele peçonhento. Logo, sonhar com o Sola só podia dar cobra na cabeça. E agora, o que ia fazer? Apostar no leão ou na cobra? Tinha a viagem toda até o barracão para decidir.

Que é que há, Zinho? Tá sonhando acordado? Tem muita coisa pra fazer ainda e o desfile é depois de amanhã. Vê se larga esse cigarro e apronta logo a cabeça que é pro abre-alas…e não vai fazer besteira, hein? Esse ano o título tá no papo e a grande surpresa é justamente o abre-alas com essa invenção aí que o americano trouxe pra gente. Vê se não vai estragar tudo, o segredo tá na cabeça, na cabeça, ouviu?

Zinho ouvia e não ouvia. Trabalhava na cabeça enquanto a sua própria cabeça não parava de trabalhar. Será que tomei a decisão certa? Espero não ter escolhido o bicho errado, afinal joguei uma boa grana e se perder como vou explicar pra Ritinha? Era dinheiro guardado pro casamento…falava consigo mesmo enquanto soldava uma peça aqui, outra peça acolá. E não é que a danada tava bonita mesmo? Agora era só preparar todo o mecanismo que ia fazer do carro a sensação do carnaval, mais um pouquinho aqui e…epa! o que é aquilo? Esse traíra do Sola tá com más intenções pra cima da Ritinha. Tá pensando o quê? Além de roubar meu lugar no desfile vai roubar minha namorada também? Isso não vai ficar assim não, vociferava enquanto ia largando pelo chão cabeça, ferro de soldar, cigarro pela metade, peças, fios e o sonho de ver a escola campeã.

Sola foi parar no hospital. Ritinha teve de ensaiar muito para se adaptar a um novo mestre-sala a dois dias do desfile. Zinho foi mandado para casa imediatamente e proibido de voltar ao barracão e até de aparecer na Sapucaí.

Enquanto Zinho despejava sua revolta contando pela milionésima vez aos amigos no boteco que tinha sonhado com mais essa traição do Sola, aquele ingrato que tanto feijão comeu lá de casa!, numa redação de jornal distante dali o repórter de plantão preparava a notícia que acabara de chegar:

Um incêndio consumiu parte do barracão da escola de samba Leão de Nova Iguaçu, na Zona Portuária. Suspeita-se que o fogo tenha sido causado por um cigarro aceso esquecido perto da cabeça do Leão, que comporia o abre-alas. A dois dias do desfile, a escola corre o risco de desfilar sem seu tradicional símbolo.

Se resultado de jogo de bicho saísse em jornal, o mesmo repórter estaria preparando outra manchete:

Deu burro na cabeça!

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