Ridimúin

De DANIELA DOS SANTOS.

Era desde sempre que pensava tudo errado. Desde sempre que pensava em patos voando para o sul no inverno e, desde sempre, nunca soube a diferença entre pato, marreco e ganso. Desde sempre que pensava em jaca no mês de julho e que nunca quis chuva em dezembro. Desde sempre que achou, aliás, que a chuva devia subir de dentro da terra, em vez de cair de cima: Que diabos de direitos esses da chuva, de molhar verões alheios?

Desde que leu o Senhor das Moscas, pensava numa sombra verde e em nuvens azuis, como as dos seus desenhos do primário. Desde então, pensava também que crianças eram sempre perniciosas. Desde que leu Kafka, sempre quis morrer como uma barata.

Sempre pensou em poder, sempre pensou em poder fazer, sempre pensou em querer, mas só podia mesmo era pensar. Só se permitia pensar tudo assim, desde sempre, tudo errado.

Mas o que é errado pode mais, dizia alguém, que na verdade não gostava nem de si, nem de nada. Nem gostava, na verdade, a não ser de falar ineficácias. Pode mais o errado. Pode aquele que fala mais alto, o que espezinha, que ironiza (ironiza, aliás, do inglês, iron: ferrar, foder). Fode quem passa mesmo por cima, quem conta uma mentirinha, quem sabe sair por cima.

De tanto poder pensar errado, num dia de chuva anunciada, pensou que estava mesmo era acontecendo tudo errado. Ao passar, na rua, ao lado de duas crianças de uns nove anos, levou um calço. Caindo, pensou que, se a gravidade é inevitável, pelo menos o chão fosse macio. Ao topar com ele, deu numa piscina de lama, no meio de um buraco na calçada, crescendo como se brotasse da terra. Como se chovesse de baixo, ali mesmo boiando em sua piscina, viu o asfalto inchar e as calçadas suando, bueiros enchendo e vazando, ralos imensos. Atônito, nem mesmo conseguiu pensar no que fazer para não chegar tarde no trabalho e com a roupa suja de lama. Mas pensava em chefia furibunda, em desemprego e em despejo.

No restinho do caminho para o escritório, nem tinha tido tempo de pensar que nesse dia houve uma revolução. Não em seu pensamento errado, mas em tudo o que se conhecia.

Uns japoneses fizeram surgir no universo uma novíssima coisa de dar poder aos pensamentos. Pensaram em quase tudo. Pensaram em todos os detalhes técnicos e científicos pra transformar pensamento em coisa. Mas, apesar de não serem personagem principal dessa história, acabaram pensando tudo errado. Ou ainda, acabou, pensando tudo errado.

Um japonês pensou, bem na hora do teste para a imprensa, que a grande máquina do poder do pensamento deveria ter um botão de automático. Com um botão de automático, ela poderia dar poder a todo pensamento de toda criatura, eliminando a possibilidade de discriminação. Pensou num mundo mais bonito, pensou num mundo de miss. Mas não pensou que por fora da cabeça, diariamente, pensam incontáveis cérebros cinza-podres, desde sempre houve milhões que pensam tudo errado. Esse mesmo pensamento foi todo errado. Mas a grande máquina nunca levava em consideração julgamentos de valor, por isso deu poder ao pensamento de transformar, automaticamente, todo pensamento de toda criatura em poder. Não poder de verdade. E não aquele poder clássico do pensamento. Um poder real. De verdade, não, mas real.

E o automático da máquina passou automaticamente a existir pela existência do pensamento. E deu poder aos pensamentos sobre dinheiro, que já tinha poder antes disso, mas se tornou Deus. O poder do pensamento em Deus transformou-se quase sempre em dinheiro e se uniu ao poder maior, já que a máquina não dava poder divino aos pensamentos. O mais complicado, sem dúvida, eram os pensamentos que misturavam Deus com os mortos. Primeiro, porque eles já não têm nem usam dinheiro; depois, porque, em pensamento, todos os mortos são idealizados. E como bem já dizia aquela pessoa que só gostava de ineficácias, o errado pode mais; é muito mais fácil dar poder a um pensamento todo ou parcialmente errado que a uma imagem pura. Os mortos, se pensados como eram, seriam ressuscitados com o poder dos pensamentos.

Os pensamentos puramente sobre a morte também eram poderosos, mas delicados. Nem todos os que pensam em morte, pensam em matar, e muito menos em morrer, porque é muito mais fácil pensar claramente sobre a morte dos outros; e os que pensam na própria morte, muitas vezes não sabem o que pensar dela. Por via das dúvidas, a máquina acabou dando poder de morte a todo pensamento fúnebre. Nesse dia, muitos vizinhos, sogras, ex-namorados e patrões morreram, e morreram pensando em tudo, menos no motivo de suas respectivas mortes (Antes a máquina tivesse feito ressalvas, não? Só morreria o desafeto que pensasse em seu inimigo. Mas não! Morreram todos. Mesmo os que pensavam em perdão, mesmo os que já tinham perdoado e esquecido, mesmo os que tinham feito sem querer).

Os pensamentos sobre suicídio (notem, por favor: pensamento sobre suicídio, não sobre morte) tiveram um destino diferente. A máquina deu a eles o poder de se auto-interpretarem como um desejo irreprimível de ser feliz. Os potenciais suicidas passaram (ou voltaram), então, a fazer sexo, usar drogas e comer chocolate e pipoca doce, que apareciam em todo lugar (tanto as drogas, como os parceiros e os doces).

O ser que pensava em jacas, patos e chuvas acabou por dar-se o poder de se demitir, de esmagar seu patrão sob uma sola de havaiana, de usar LSD e de sair com a secretária e o advogado bonitão do escritório vizinho. Pôde até ver um bando de patos voando para Bariloche.

Durante um tempo, ninguém pensou em desligar a máquina. Até que, no meio de uma viagem multicolorida, esta personagem principal pensou que a vida era muito mais difícil com pensamentos poderosos. Que antigamente o trunfo do pensamento era que se podia pensar impunemente, irrefletidamente, sem pensar em responsabilidade, cidadania ou alteridade. Sentiu saudade do tempo em que se podia pensar tudo errado e disfarçar, pensar tudo errado e ninguém ficar sabendo (naquela época, só quem sabia do erro dos seus pensamentos éramos eu, que escrevi, e você, que teve coragem de ler).

Sentiu saudade do anonimato e da pouca iluminação no interior da cabeça. (Quando a única abertura digna da cabeça era a boca, a passagem do ar era cortinada por vontade; com isso de máquina, fica tudo aberto, arejado demais, livre demais: só passa vento.) Sentiu falta do autodesconhecimento e do absurdo de achar que todo outro é normal, falta de saber que guardava no cérebro o último cachorro-do-mato. Sentiu ciúmes quando viu que as três cabeças do seu cão latiam fogo dentro de todo mundo.

Pensou que o certo mesmo era que pensamentos fossem só pensamentos.

E a máquina se desligou. Muitas coisas continuaram com o nome trocado, muitos patos confusos e confundidos. Sobrou muito do poder atribuído ao dinheiro e muito estrago da chuva subterrânea. Muitas crianças continuaram adultas e muitos adultos se cansaram ao perceberem que teriam que crescer tudo de novo. Muitos sentiam falta de se fazerem mais bonitos, mais fortes, mais ricos, mais respeitados. Todos se regozijaram ao pensar que escaparam de alguém que lhes poderia pensar alguma morte.

Todos continuamos com nosso poder todo confinado na cabeça.

Todos continuamos confiando o poder à cabeça.

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