Vibrações

De ROBERTO AMARAL.

Ao João Luiz, in memoriam.

Eu tinha ido dormir cedo naquela terça à noite. Sonhava, naquela profundidade abissal de que são feitos os sonhos infantes. Fui dormir cedo por conta de uma arrependível promessa que tinha feito à minha mãe: “se não for dormir agora, não vai ganhar aquele bandolim que teu pai te prometeu”. De verdade eu queria era um violão. Mas pro corpo dum menino de nove anos, um violão fica parecendo uma camiseta tamanho GG: esconde a gente: unzólhos grandão por trás duma madeira gorda. Fica ridículo, ainda que o guri seja um exímio violonista. Ele achava mais adequado um cavaquinho: pequeno, poucas cordas, peso e tamanho ideais. Mas pra mim o problema tava justamente aí: depois de ouvir tantas vezes o Oscar Wilde tocando bandolim, não dava pra negociar: ele era de um formato mais arrojado: uma enorme pêra convexa de madeira, com quatro cordas a mais e quando trinado me levava mais longe que minhas corridas pelo meio da sala onde, em variadas formações, ele se derramava com seus companheiros de virar a noite: em jacós, valdirazevedos, pixinguinhas… O baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo no piso de vermelhão troou no meu sonho de maneira diversa: tocava meu bandolim no alto do morro do Mendanha, um urubu, malandramente, sobrevoava minha cabeça, ora alto, ora baixo. De repente ele ganhou mais distância como pra pegar maior impulso. Aquele ponto negro alado foi se aproximando, se aproximando e ganhando uma absurda velocidade em minha direção, continuei a tocar, mas meu corpo já vibrava mais que as cordas do bandolim. Um rasante rente à minha cabeça tirou meu escalpo e eu fui caindo de costas enquanto olhava o urubu ganhando novamente as alturas. Fui caindo lentamente, lentamente, lentamente… e PÃM!: o baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo: o meu corpo numa pedra no pé do morro do Mendanha. Apesar do susto que me fez simular uma queda na cama, não acordei. A estranheza dos sonhos mudou de canal e eu já estava em outra paisagem que não lembro mais. Pudesse ficava pra sempre naquela paisagem inominada e disforme. Pudesse não amanheceria jamais para o tumulto, para o terror, para a dor e para a tristeza provocada por aquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo em concreto naquela terça, tarde da noite. Levantei e a atmosfera não era a mesma, pressenti. Não senti, entre o sono profundo e a vigília aquele rosto de barba mal-feita a roçar o meu, como acontecia todas as manhãs, às vezes mais tarde, às vezes mais cedo. Sentei-me na cama, olhei para o lado e ali estava ele: uma case preta com as lingüetas prateadas cheirando àquele indecifrável cheiro de instrumentos novos, de como quando a gente ia juntos à Casa Betânia comprar encordoamento novo para o seu violão feito sob medida pelas mãos artesanais do luthier Signorini. No meu peito senti um misto de alegria profunda, indescritível, mas havia ao lado disso uma nódoa de tristeza que não queria se desmanchar, sei lá… um peso insustentável que me punha pra baixo tal como se eu tivesse sobre a cabeça uma enorme bigorna e dentro do tórax um mim mesmo nascendo de novo, mas já do tamanho do que eu era. Não tive coragem de ir abrindo as lingüetas pra ver o que tinha dentro: o bandolim que eu tanto sonhara? Senti como se de repente eu não mais o merecesse, como se não mais precisasse dele, como se eu nunca fosse ver por meus próprios dedos ele se fazer em notas musicais. Senti assim. Não quis me levantar da cama. Queria voltar a dormir urgentemente. Queria não ter pedido de presente aquele presente que eu tanto queria e que por tanto querer custaria um preço alto demais: o custo de toda uma vida. Que ele voltasse às avessas a ser madeira, depois árvore frondosa para pouso de fubazentos tico-ticos e de atrevidos bentevis; que as cordas voltassem a ser o informe e impenetrável aço, desde que aquela manhã se fizesse outra vez uma manhã como outra qualquer: com um simples roçar de barba mal feita sobre o meu rosto que sorrindo fingia dormir. Já começava mesmo a sentir raiva daquele instrumento ridículo que já pesava nas minhas costas como um fado que eu não pedira. A manhã amanhecia lenta: os primeiro raios de sol perfuravam a cortina do meu quarto e alcançavam a minha desalegria. Por nada eu sairia daquele quarto, inda mais que eu já ouvia agora uns soluços abafados que reconheci: eram de minha mãe. Só ouvi iguais a esse quando fiquei uma vez internado com dengue. Minha mãe soluçou assim, disfarçando a dor, enquanto eu lia o último número do X-Men. Mas por que ela iria soluçar agora se eu estava ali no quarto feliz com meu presente, esperando só a hora d’eles entrarem de supetão e gritarem: “surpresa!”?. Que surpresa era aquela que o próprio presente a surpreendia? Não, não mesmo, eu não iria sair daquele quarto, mais que isso, não deixaria ninguém entrar! Não queria mais saber de nada. Iria tapar os ouvidos para qualquer notícia e iria gritar mais alto que a voz de qualquer um que quisesse me contar alguma novidade. Não, eu só queria o velho: pra trás a gente só pode é nascer de novo, pra frente a velhice e a… Ensimesmei-me: lesma para dentro de sua concha, recém-nascido de volta ao seu útero. Silêncio. Silêncio de… A porta do meu quarto ameaçou abrir. Viesse já? Eu não estava preparado pra nada. Rangeu na espessura do medo de quem tentava abri-la. Eu vi: a porta estava com medo. Eu não fiquei com medo da porta em si a ranger, pavor maior meu era do vazio em que ela se faria ao se desnudar em larga aba. Por mim ela permaneceria fechada para sempre, como meu sobressalto agora aquietado dentro do meu imobilismo, como o bandolim dentro da case, bem guardado pelas lingüetas. Mas essa tardança não se dá indefinidamente, uma hora ou outra precisamos nos a ver com o que revela sua agônica demora. E deu-se assim: minha mãe entre soluços e lágrimas deu sentido àquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo na última terça feira, tarde da noite, enquanto eu sonhava com bandolins, urubus malandros, vôos rasantes, escalpos, quedas, pedras e morros do Mendanha. Naquela manhã a quietude do Novo Horizonte foi quebrada não pela balbúrdia, mas pelo baque surdo do silêncio. O bom coração vagabundo de meu pai o levara para longe do roçar de sua barba em meu rosto em tolas manhãs. Antes disso ele já havia trocado o metrônomo pelo marca-passo, o cigarro pelo ar quase puro das caminhadas no parque Vaca Brava, a Skol pela Coca Zero, o que renovou as nossas esperanças, minha e de minha mãe, de dias melhores por conta de boas melhoras em seu estado de saúde. Diagnosticou-se disritmia cardíaca: um paradoxo para quem ditava o ritmo. Ora, o que ele curtia era o chorinho e o chorão e não o samba de breque. A síncope era só permitida para tomar o “mé”. No mais a extensão lancinante de cordas e sopros em pé na tábua, em bate papo, se machucando em doces melodias, modulando o pedacinho do céu. É pouca a ironia? Pois bem, naquela noite de terça, tarde da noite, ele voltava de uma apresentação no Centro de Convenções, ele e o grupo dele fizeram a abertura do Congresso Mostra Saúde(!) (por que ela não continuou se mostrando?!). Chegou, deve ter beijado minha mãe, foi ao banheiro e: aquele baque forte, firme, viril e seco de corpo caindo no chão de vermelhão, vermelho e duro. Eu não vi, só ouvi, pois estava demasiado ocupado a sonhar com urubus malandros… e bandolins… e quedas… e pedras… e morros do Mendanha… Mais tarde, meu pai já não podia mais me beijar nunca mais com sua barba mal feita em meu rosto em inesquecíveis manhãs. Seu corpo agora, sem disritmia cardíaca e sem o ritmo que ele ditava no violão artesanalmente feito pelo luthier Signorini, jazia sobre uma laje fria no Centro Comunitário do Setor Novo Horizonte, circundado por uma estranha formação que entoava chorinhos, choros e chorões sem violão, sem cavaquinho, sem o odiento bandolim, sem flauta, enfim. Até então eu não tinha chorado, ensimesmado estava: lesma para dentro de sua concha, recém-nascido de volta ao seu útero. Mas quando o Zé Geus empunhou sua clarineta e começou a entoar os primeiros acordes de Vibrações… aí não, velho, cara, aí não, fui tomado de uma saudade, uma saudade foi me tomando, uma torrente de lágrimas foi me afogando, eu querendo verter aquela inundação que me fazia faltar o ar… a dor, o peso, o urubu de novo vindo em minha direção, eu engolindo lágrimas e soluços, me senti miúdo naquelas vielas do Cemitério Memorial Batista, não vi mais ninguém, ninguém me via, eu, a viela, a torrente de lágrimas, o Zé Geus, as vibrações da clarineta, daí… puta que o pariu… o bandolim… a porra do bandolim… caralho… eu não tinha deixado ele trancafiado na case… eu tinha… eu juro que eu tinha… ele veio… o som dele veio… me tomando… me dominando… fazendo estrago dentro de mim… aí eu não agüentei mais e gritei o maior grito que minha voz um dia gritará: Joãããããoooo!!!!! Joãããããoooo!!!!! Joãããããoooo!!!!!…. … … … … … … … … … Quando voltei a mim, estava deitado outra vez na minha cama. Vi pelos fracos raios de sol que varavam a cortina do meu quarto que o dia também já se ia. Olhei para o lado e ele continuava lá, dentro da case, as lingüetas intocadas. Já não tinha mais forças pra chorar. Fiquei assim com olhar voltado para o bandolim que jazia dentro da case preta. O sal de uma lágrima mal secada no canto do olho. Uma sobriedade alcançada pela exaustão. O ódio ao instrumento havia passado. Foi quando tive coragem de querer ver como ele era: plac… plac… plac… lingüeta a lingüeta fui desnudando-o. E lá estava ele sobre um delicado forro vermelho. Ele me olhava, refletindo em seu claro verniz a fraca lâmpada do meu aposento. Foi aí que entendi. Doloridamente entendi: ao chamar por meu pai aos berros lá no cemitério, eu chamava a mim mesmo. Agora seríamos eu meu bandolim a entoar novas vibrações.

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