A raiva é uma dádiva

De LEONARDO TESSITORE.

Não poderia mais me enganar. As andanças circulares de meus calcanhares pelo mundo, já estavam a me mostrar a verdade. O lindo véu cristão adolescente encobrindo a desgraça humana já estava morrendo ao chão. Mesmo sem abrir os olhos, tamanho o peso da carne desejosa e nua de verdade, já conseguia ver milhares de mendigos se amontoando perante as janelas elétricas ardorosas estrangulando a fé com seus olhares ferrugem profundo, amputando a esperança com longas e calejadas mãos de quem nada tem, mas apenas tocam o sopro-vácuo profundo da vontade. O ar do meu peito torcido, extraviado (…) a arritmia cortante, devassa (…) a angustia, velha amiga, se apossando dessas veias azuis acarpetadas, bem tratadas, o gosto seco de enxofre tomando a garganta. Era o desmoronar de meus órgãos, um enrabar dadaísta destruindo meu palácio de ferro. Meu frágil e pedante prédio de ferro, que foi honestamente custeado com o suor de minhas ventas, ou seriam cascos?! Eu que tanto respeitava a lei do mais forte, a auto-regulação da vida, O Deus que tudo via e tudo julgava, eu que era impávido, que tinha raízes grossas fincadas na deliciosa terra do capital, agora não existia nessa terra. Eu ali era um fantasma. Sem vontade ou desejo para saciar, apenas o terror dos meus olhos amamentava meu espírito. Tornara-me parte desse emaranhado de vidas, um corpo panteísta a flutuar em meio ao esgoto e ao redemoinho de merda e individualismo que se tornará nosso mundo. Boiando em meio ao século vinte um, prazeroso século vinte um.

Como saciaremos a boca de escarro do mundo? Como devolveremos a vida, a aqueles que foram amputados e sangram como impuros? Como a lepra de não se ter um corpo apolíneo se tornara cura? Os mendigos se tornarão baleia para serem salvos? A ciência ira transformar qualquer pensamento ou conhecimento em ouro? Deus irá dar a vida o peso de um diamante? Os Serafins com seu sopro gelado irão aquecer a Terra? Já não me importo mais em ter, quero saciar a vontade de ser, parte desse azul, destas folhas verdes, destas peles brancas, ruivas, negras.

Quando o eu realmente não vive, o outro, totalmente não se vê, a raiva é uma dádiva que adoça a boca, e entorpece o coração.

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LEONARDO TESSITORE nasceu em São Paulo, em 1982. É formado em Radio e TV e agora cursa a faculdade de Filosofia. Escreve desde os dezoito anos, mas ainda é inédito em livro. Mantêm com amigos o blog literário A filosofia dos barnasianos. É também guitarrista da banda Desregramento dos Sentindos.


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