Cão

De ANA PAULA MAIA.

Sob o cáustico sol, as estacas manejadas por mãos truculentas com precisão e habilidade eram fincadas no solo pedregoso. Cada movimento era acompanhado pelo lacrimoso olhar do cão, que permanecia firme ao lado de seu dono. Com a cerca, pretendia impedir que as galinhas continuassem sendo atacadas e devoradas durante as madrugadas.

Acreditava-se em raposas, outros diziam ser um lobo que percorria as pastagens sorrateiramente, sua mulher acreditava que o próprio cão atacava o galinheiro e se fazia de sonso.

Quando filhote, ninguém acreditava que sobreviveria, por causa das feridas que cobriam sua carcaça magra e delicada, dos vermes que expelia pelo quintal dia e noite e da dificuldade para caminhar. Sua sobrevivência tornou-se motivo de honra. Graças à insistência de seu dono, que levantava nas frias madrugadas para cuidar do animal, que agonizava submetido ao tratamento radical, livrou-se da lepra, dos vermes, da fraqueza nas pernas e tornou-se corpulento e saudável. Mas o cheiro murriento que saía de seus poros, desse não se livrara. Por isso os constantes banhos de alecrim.

A devoção de um para o outro arrefecia o ódio da mulher, grávida do primeiro filho, que não compreendia tamanha amizade e permanecia em casa, enquanto os dois iam para o bar todos os dias no fim da tarde e pescavam juntos nos fins de semana.

A mulher, sedenta pela atenção do marido, forjava pequenas travessuras e culpava o cão pelo estrago do lençol rasgado no varal, por arranhões no sofá, e por dois gatos mortos no quintal. “Ou o cão ou eu”, chegou a dizer um dia. O marido riu e depois subiu na caminhonete, seguido pelo cão, e foram pescar.

Ela não confiava no animal. Percebia certa dissimulação em suas atitudes. Toda aquela serventia nem um cão teria, pois até as ferramentas conhecia uma a uma pelo nome. Só mesmo um bicho tinhoso daquele poderia ser tão habilidoso e esperto. Mas ele não a enganava. Não a mulher, que em pouco tempo teve suas obrigações reduzidas e agora prestava pequenos serviços em seu próprio lar.

O cão recolhia as frutas que caíam do pé, carregava a lavagem dos porcos, eliminou todos os ratos do quintal, conhecia em detalhes a rotina de seu dono, latia às seis em ponto, apanhava as correspondências com o carteiro, abria e fechava as portas e depois que passou a arrastar com uma força invejável o saco de náilon com capim para o pasto das vacas, percorrendo alguns quilômetros, tomou o lugar do jegue que fora vendido em boa hora para preparar o enxoval do bebê.

“Antes uma prostituta, uma vagabunda.” Remoía a mulher todos os dias. “Nem uma cadela é.”

O nascimento do primogênito trouxe complicações de saúde para a mulher, que se tornava, a cada dia, peça de decoração da casa. “Quantas galinhas ainda nos restam?” “Poucas”, responde o marido. “É culpa do cão e daquele cheiro de alecrim insuportável que me enoja. Quando terminar com as galinhas, ele vai atacar os porcos, as vacas, você, eu….” O marido ria-se das asneiras da mulher e antes de ir até a cidade responde confiante: “Ele é um bom cão de guarda. Sem contar que me ajuda em tudo. É meu amigo, meu parceiro. Nos protege”. Cosendo a alça do vestido, murmura para si mesma “Roubou até o lugar dos santos.”

Subiu na caminhonete, mas o cão recusava-se acompanhá-lo. Estranhou a reação e o excessivo cheiro de alecrim. Arrancou e deixou o cão envolto em uma nuvem de poeira, que logo montou guarda na porta da casa. No quarto, o bebê dormia tranqüilamente e a mulher carregando um cesto abastecido de compotas de doces caseiro, foi à casa da vizinha.

Minutos depois, o cão corria e latia pelo quintal. Estava enlouquecido e no galinheiro, assustava as galinhas que restavam. Esvoaçadas, elas cacarejavam, trepando uma nas outras. No chiqueiro, fazia arruaça derrubando os baldes com lavagem, acuando os porcos, que de longe sentiam seu forte cheiro de alecrim.

Percorria o quintal, emitindo uivos e espreitando as moitas. De supetão, adentrou a casa pela porta dos fundos. O choro abafado do bebê podia ser ouvido à poucos metros até que ……. silêncio.

Os berros da mulher ricocheteavam nas árvores e ribombavam em seu peito. O ronco do motor não permitia ao homem, que retornava, ouvir outra coisa que a arranhada música no rádio. Atravessou a porteira, e a mulher, de cócoras, arrancava com as mãos as gramas do quintal, repetindo ‘foi o cão, foi o cão, foi o cão.”

O homem correu para a casa e diante da porta do quarto do bebê, o cão permanecia como um guarda, entre objetos revirados e quebrados, com a boca e as patas lambuzadas de sangue. Ao ver o dono, emite um uivo longo e solene.

Na pequena oficina nos fundos da casa apanhou uma espingarda. Enquanto carregava a arma, sua visão embaçada e seu coração disparado, esquentava o sangue que percorria seu corpo quase eletrificado. Imediatamente, retornou a casa. A mulher, ainda sobre a grama: “foi o cão, foi o cão.”

Ajoelhou-se diante do quadro da Santa Ceia, pendurado com destaque na humilde sala e rezou um Pai Nosso. Pediu perdão por confiar mais em um cão do que na própria mulher, sua companheira. Pediu perdão pela cegueira, por ter sido enganado por satanás na forma do animal. Fez o sinal da cruz e se pôs de pé.

Apontou a espingarda diretamente para a testa do cão, que novamente emitiu um solene uivo, de clemência e misericórdia, enquanto as lágrimas escorriam pelo focinho, sulcando o pêlo. A sala impregnou-se com o cheiro de alecrim, que fazia arder as narinas. Com o coração disparado, o animal permaneceu firme, fitando seu dono, até que seus olhos explodiram e suas partes lançadas pelos ares grudaram sobre a Santa Ceia.

A porta semi-aberta do quarto escancarou-se quando, após o tiro, ouviu-se um choro. Acendeu a luz e o bebê agitava as mãozinhas para o ar, chorando gradativamente mais forte. Tocou a criança que não tinha um arranhão sequer. O coração bateu ainda mais intensamente quando percebeu alguma coisa úmida sob seus pés. O sangue de uma grande raposa morta pelo cão à golpes e dentadas, que ainda agonizava, maldita.

Inspirou antes de desabar sobre os restos esfacelados do cão, que desintegrava-se rapidamente, exalando ainda mais forte o perfume de alecrim, que nunca mais abandonou seu dono, onde quer que ele estivesse.

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ANA PAULA MAIA, carioca, nasceu em 1977. Publicou, em 2003, o romance O habitante das falhas subterrâneas (7Letras) e, em 2006, o primeiro folhetim pulp da internet brasileira, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos. Participou, ainda, de diversas antologias, entre elas: 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record), organizada por Luiz Ruffato, Sex n’Bossa e Contos sobre tela (Pinakotheke). Em 2007, lançou o romance A guerra dos bastardos (Língua Geral). Mantém o blog Killing Travis.

 


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