O Menino-Homem-Aranha

De HENRIQUE RODRIGUES.

— Não chora não, deixa que eu pego ela, o Homem-Aranha não tem medo de nada!

Uma casa em chamas não é muita coisa para quem possui uma pira na alma. O pequeno Riquelme dribla as chamas com uma dança espetacular, correndo sobre as brasas com a fé de um faquir místico. Com saltos e desvios, o pequeno herói mergulha nas fumaças densas e volumosas, que aparentavam figuras monstruosas e disformes.

— O Homem-Aranha não tem medo de nada.

A camisa de Homem-Aranha recebida de presente foi mais que uma roupa, converteu-se em uma segunda pele. Apesar das ordens da mãe, Riquelme só tirava a fantasia após muita insistência, às vezes depois de uns tapas, dos quais o garoto se esgueirava chamando-a de Duende Verde e Octopus, nomes que causavam ainda mais irritação em D. Jurema por não saber o que significavam. Dormia com a roupa, e nos seus sonhos se pendurava pelos prédios altos e se agarrava em todas as superfícies possíveis. Era atingido às vezes, se feria, ficava fraco, mas se erguia e derrubava os inimigos com facilidade. Sabia que era humano por trás do uniforme – que não era exageradamente forte como o Superman -, e por isso mesmo se espelhava no aracnídeo. Quando acordava, não ter os poderes do sonho era apenas um detalhe que não diferenciava muito. Porque não queria ser igual ao Homem-Aranha: ele era.

A vida desprovida de quaisquer benefícios ficou em segundo plano, visto que o próprio Peter Parker era pobre também, fato que Riquelme enxergava até como certa condição para que se sentisse mais impetuoso. Não houve muito alarde quando levou o primeiro tombo depois da escalada na goiabeira do quintal. As outras crianças caíam de lá também, algumas com pequenas fraturas, outras apenas com hematomas. Riquelme não. Logo após desabar, corpo leve e ágil, de imediato se levantava e fazia pose de herói.

Quando a notícia do incêndio correu – antes mesmo do cheiro e da fumaça -, Riquelme disparou incontinenti para o perímetro de segurança que o calor e o bom-senso configuravam. Num canto da aglomeração, o desespero de um pequeno grupo em acudir uma mulher chamou a atenção. Próximo a ela, Riquelme ouviu o lamento já resignado da iminente perda da filha. Alisou a fantasia de herói sobre o corpo, e com o olhar fixo nas labaredas lançou-se confiante para o desafio.

As madeiras do barraco estalavam alto, anunciando o desmoronamento próximo. Ao mesmo tempo, no entanto, o Riquelme crepitava. Com a audição aguçada, conseguiu ouvir o choro da criança vindo do último cômodo. O Homem-Aranha não tem medo de nada, pensou antes de correr rumo às línguas e brasas.

Em meio à comoção, foi um dos bombeiros, conhecido da família, quem notou e guardou para si o detalhe: a roupa de Homem-Aranha se fundiu com a pele do menino de cinco anos, pouco antes que ele caísse.

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