O que um homem pode fazer com uma mulher

De WESLEY PERES.

A irmã morta. Quanto mais culpa mais o fantasma.

Transtorno bipolar do humor. Aceita o nome dado, ao menos um nome pra essa esquisitice toda. Ir ao médico serviu pra dar um nome a toda essa esquisitice que a vida dele.

Vinte e oito anos, nada realizado. Sem emprego e segundo grau não terminado e já nem existe segundo grau mais. Mora com o pai e com a mãe, aposentados.

O dia todo entulhado no quarto entulhado de ele. Ele entulhado de si mesmo. O quarto entulhado de livros. Os livros entulhados de anotações inúteis. Nada acontece além de livros e masturbação. Também uns poemas mal-escritos. O pai quase nunca fala. A mãe quase não pára de falar. Fala sozinha. Fala com a tv. Fala com o pai que não fala mas assente com a cabeça fingindo escutar — e talvez escute mesmo. Vai ao quarto, fala com ele, e ele fala com a mãe.

Nunca, sempre, ele e a mãe, não falam sobre ele sempre no quarto. Nunca, nenhum amigo, sempre, nem namorada, nem emprego. Escola abandonada, sempre.Vida que se repete como um relógio. Apenas os livros são outros, outras as mulheres donas de partes de corpo que nucleiam as fantasias dele.

A irmã morta morreu quando ele tinha vinte anos e ela própria dezenove. Não. Ele não ficou assim porque a irmã morta. Mais um sempre em sua vida. Sempre foi assim. Quando esperma e óvulo, já era assim. O DNA é um destino, aprendeu com a mãe.

A irmã morta é sim a mulher que vagueia anônima ou com nomes diversos em seus poemas para gaveta ou lata de lixo. Deus só existe na hora da culpa. Quanto mais culpa, mais o fantasma das formas muito brancas da irmã, em sonhos nos quais, pela frente e por trás, faz tudo o que um homem pode fazer com uma mulher.

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