Passo em falso

De JEANETTE ROZSAS.

Não lembro se olhei na hora de atravessar. O sinal estava a meu favor, disso tenho certeza. Aberto para a fuga, sem pensar nos carros, sem pensar em coisa alguma. De repente, a queda, o impacto, a dor. Devo ter pisado em falso. Não, não, alguma coisa está errada; me lembro de ter tirado o pé da calçada e apoiado no asfalto, o outro saindo do chão, pronto para o passo. O carro! Isso mesmo, foi um carro e não o passo em falso. Surgiu pela direita, veio a toda rente ao meio-fio, justo quando eu ia atravessar. O choque antes da queda, as costas batendo primeiro, as pernas elevadas no ar como se fossem virar sobre a cabeça. Depois, abandonadas no chão. Olha o cara fugindo com a bolsa da mulher! alguém gritou. Não. Não foi um passo em falso.

As coisas estão voltando pouco a pouco: meu pé quase alcançando o asfalto, o carro que vinha pela direita; me pegou em cheio. Voei alto até minhas costas estourarem. A bolsa, não posso largar a bolsa. Olha o cara, está fugindo com a bolsa da mulher! Voz de homem. E também um grito, acho que de mulher: Cuidado! Antes ou depois da queda? Tento falar, peço para que avisem Áurea e Daniel, mas uma voz manda que eu não me mexa. Tenho medo, muito medo. Para onde estarão me levando? Quase não sinto dor, só uma tontura ao ver as luzes no alto passando tão depressa. Acho que estou deitada, não sei. Dá licença, emergência, emergência. Tudo se mistura, medo de dormir e não poder chamar Áurea e Daniel, eles vão ficar preocupados, é o que tento explicar, mas uma picada no meu braço e o sono aumenta. Estou quase apagando. A minha filha, onde está a minha filha? Em meio ao sonho vejo Áurea. E Daniel. Será que estão ao meu lado? Quero virar a cabeça. Olhos pesados, uma luta para abrir. Luz forte, imensa, uma só, bem por cima, e sombras brancas à minha volta. Nova dor no braço e tudo escurece.

Sonho: vejo Áurea criança, tão meiga, tão triste com a separação; Áurea quase adolescente, feliz quando Daniel veio ser seu novo pai; agora sim, era como as demais amigas que tinham pai, só ela que não. Um bom pai, brincalhão, carinhoso, melhor que o verdadeiro. Onde estão Áurea e Daniel? Sempre juntos, tão amigos. Preciso deles ao meu lado. Áurea e Daniel. De repente, o pesadelo. Quero acordar e não consigo, preciso acordar, me ajudem, me ajudem. De novo a escuridão.

Não sei quanto tempo passou. Acordo: estou deitada. Imobilizada. Através da janela vejo uma nesga de dia. Lá fora, o som angustiado de uma sirene. O cheiro de desinfetante e éter começa a me enjoar. Não sei quantos dias estou assim. Já perguntei e já me disseram, mas não quero lembrar, não faço questão, o que importa o tempo? Desde a última vez que acordei, o pesadelo igual ao do sonho Só um pensamento ocupa todo o vazio: a fuga, o choque, a queda, a dor. Quero parar de pensar, mas não consigo; aquele dia volta com uma nitidez enjoativa e então grito até que a enfermeira venha e me dê uma injeção que me faz dormir. Durmo mas sempre sonho. Áurea pequena, tão linda, triste com a separação. O novo pai em Daniel, um pai de verdade, bom e carinhoso. Sinto o ar faltar, quero gritar, felizmente acordo. Tento pensar em outra coisa. Na dor, por exemplo. É muita, mas não suficiente. Então arranco a perna engessada do apoio, tento chutar, espernear até que doa mais e eu grite. A enfermeira volta e me faz dormir novamente. Daniel foi ótimo pai para minha filha, melhor que o verdadeiro. Ajudava nas lições, contava histórias, brincava com ela, duas crianças correndo pela casa e eu sorrindo com aprovação. E como me ajudou quando Áurea adolescente deu de me hostilizar. Até isso foi superado. Acordo mais uma vez. Feliz e infeliz. Tento apagar as lembranças o mundo à minha volta. Não quero dormir, não quero acordar. Nunca mais. Áurea, tão linda e Daniel, meu marido, tão companheiro. E eu sorrindo com gratidão.

Quando soube não quis acreditar. Saí correndo. Atravessei a rua sem olhar. O choque, a queda, a dor. Pouco para o que eu pretendia. Queria mesmo era sumir e nunca mais voltar. Mas estou aqui, imobilizada há não sei quantos dias. Áurea veio me ver. Tentou tocar no meu braço e murmurou ‘mamãe. Fechei os olhos e comecei a gritar, até que a enfermeira me fez dormir.

Daniel ao menos teve a decência de nem aparecer.

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Natural de São Paulo, JEANETTE ROZSAS é advogada e escritora. Tem contos e romances premiados, no Brasil e no exterior. Participa de antologias e sites de literatura.

É autora de Feito em silêncio (Ed. Vertente, 1996), Autobiografia de um Crápula (Ed. Limiar, 2003) e Qual é mesmo o caminho de Swann, (Ed. 7 Letras, 2005). É uma das contistas participantes da antologia Zodíaco, recém-lançada pela Editora Nova Alexandria. E-mail: jeanbe@uol.com.br.


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