Patrick

De FLÁVIO IZHAKI.

“Senta”, a diretora disse, apontando uma das cadeiras que ficavam em frente à mesa dela. Eu ainda parado no umbral da porta, preso, estático, os olhos correndo pelas duas cadeiras. “Senta”, repetiu, séria. “Em qual delas?”, perguntei, e ela respondeu, “qualquer uma Patrick, precisamos conversar um pouquinho.” E eu puxei a cadeira da direita, e ela colocou os óculos, tirou um papel de uma pasta, e voltou a olhar para mim, ainda de pé, segurando a cadeira da direita: “Posso sentar nesta outra?”, perguntei, apontando com os olhos para a da esquerda, e ela disse que sim.

Sentei.

“A outra estava um pouco suja”, menti. Não tinha nada de errado, mas não queria sentar nela. “Vou pedir para a faxineira limpá-la depois”, ela disse. E continuou: “Você sabe por que te chamei?” E virou o papel que antes escondia sobre suas duas mãos espalmadas: minha prova de matemática.

“Fui mal na prova?”, arrisquei. “Bem, você tirou quatro. Não é uma boa nota, especialmente para você, que sempre foi um excelente aluno.” Pausa, olhar de reprovação meticulosamente calculado. “Mas mesmo assim está acima da curva da turma.”

Relaxei um pouco na cadeira, meu corpo cedeu e escorregou no encosto, quase se diluindo. “Mas não foi pela nota que pedi para te chamar no meio da aula”, ela disse, e de novo meu corpo a postos, ereto na cadeira, trincado, os músculos distendendo-se ao extremo na posição.

“Pedi para te chamar para conversarmos sobre a sua prova”, prosseguiu, e eu reparava que escolhia as palavras com cautela – pedi, conversarmos, excelente aluno. “O que tem minha prova?”

“Não sabe mesmo?”

………………………………..E empurrou o papel na minha direção.

“Eram três questões: a primeira valia quatro pontos, a segunda e a terceira três, totalizando dez. Você acertou a primeira questão. O professor Marçal disse que você foi um dos cinco únicos que acertou a primeira questão, aliás, mas depois…”

“Depois?”, repeti a palavra, com entonação de pergunta, suspense, mas ela não entendeu.

“Então, Patrick, e depois, o que houve?”

“Eu queria muito acertar essa primeira questão!”

“Sim, e acertou.”

“Fico feliz. Queria mesmo acertar, e pensei que estava resolvendo errado.”

“Não achou que tinha acertado?”

“Não”, eu disse. “Tinha dúvida.”

“Olhe a sua prova.” …………………………………..Empurrou um pouco mais o papel.

………………………..Eu empurrei de volta.

“Não precisa, fiz a prova, sei o que escrevi.”

“Então me explica”, ela disse, agora o rosto incerto, pendendo entre a pena a irritação.

“Explicar o quê?”

“Porque repetiu a resolução da mesma questão sete vezes na prova?”

………………………………………………………………………………………….Empurrou o papel novamente, todo rabiscado, a primeira questão com a resposta correta, o símbolo de certo, quatro pontos, mas no espaço do segundo problema matemático, a mesma resposta. A resolução da primeira novamente, e um risco vertical no meio, e do lado direito a mesma resolução, a mesma resposta, e na terceira dois risco verticais, colunas, e três resoluções da mesma questão, não límpidas, mas sujas, rabiscadas, como se cada vez que repetisse a resolução da mesma primeira questão ela ficasse mais difícil.

“Quer me explicar, Patrick?”

“Eu queria muito acertar essa questão”, repeti.

A diretora alternava o olhar do papel para o meu rosto, para o papel, para o meu rosto, como se esperando algo mais, mas mais eu não tinha para dizer. E arrisquei, gaguejando.

“Eu, eu…”

E ela olhou só para mim, seus olhos presos nos meus, na minha boca.

“Eu, eu, eu, eu queria muito acertar essa questão.”

Levantei, deixei a prova em cima da mesa.

Fiquei de pé esperando a permissão para sair.

Ela disse, séria: “Precisarei falar com a sua mãe. Peça para ela vir aqui amanhã às 9h, ok?”

“Ok”, confirmei. …………………………………………………………………………..E saí.

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………………………………………..

FLÁVIO IZHAKI é autor do romance De cabeça baixa (Editora Guarda-chuva), que será lançado em março.


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