Ressonância

De PRISCA AGUSTONI.

: vou acabar com isso. Vou acabar com esse bicho que rói meu corpo. Insetos invisíveis rondam o amor: pendurados nos cílios, tricotam uma teia que se instala entre mim e o mundo. Uma teia que não me cega o suficiente e me deixa espreitar o que não gostaria de ver

………………………………….ela na rua

: o estranho passa a mão no seu ombro como se me tocasse. O seu corpo que é o meu, com os tornozelos elegantes sempre à espera do meu olhar. Imagino os detalhes da intimidade entre os dois, as palavras que antecedem a escuridão, a sensibilidade táctil. Sinto, em mim, as mãos dele, à procura de uma resposta. Um toque, o dia que pára, os órgãos que reagem, sob a cútis. Sinto as mãos dele me procurando enquanto percorrem as costas mediterrâneas da mulher que amo: uma bacia de turvo amor. Sensação estranha, que me aterroriza. São mãos finas, amorosas, de alguém que preenche com cautela os vazios da linguagem. Na minha cabeça, explode o gênesis: verbos, objetos e sentimentos sem rumo. Nunca fui amado com esmero, por certo, nunca a amei assim. O estranho nos ama de uma forma diferente. Vejo suas mãos a tatear a face dos pensamentos. Cercam minuciosamente o local que me faz refém de mim:

………………………………….andar em círculo é amar até desfolhar

: vou acabar com isso, não suporto o prazer recém despertado pela sua peregrinação ao sondar as ínguas vivas da mulher que amo:

………………………………….ela está nua

: quantos são os homens disfarçados na multidão? Ela os conhece? Danação o corpo que se acende e nos desmente. Pergunto: de onde vêm as cintilações que aquecem meu sexo? De onde vem a pátina que encobre e torce o retrato de quem amo?

Preciso libertá-la, para que me ame eternamente, e afastar as mãos alheias do seu corpo intacto, de porcelana madura.

Preciso afastar todas as mãos que estão ao seu encalço.

………………………………..A faca a faca.
………………………………..Treze vezes a faca.

A cada vez, afastam-se um pouco mais de nós as mãos do estranho. Elas recuam no tempo e no espaço e de gentis se tornam anônimas, de anônimas perdidas na memória (mas quantos são os homens que a olham na multidão?)

O retrato da mulher que amo está deitado no vermelho.
Desenham-se, ao seu redor, pequenas papoulas que celebram o nosso amor eterno.

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