Balada do menino ao vento

De SUSANA FUENTES.

Um dos afazeres fundamentais do vento daquela região era esperar a chuva cair… lá onde uma campina extensa abriga de verde os morros. O vento fazia a água planar e pousar macio na terra e a água refrescava o vento com perfumes do ocre escondido. Água e terra brincando juntas, coloriam-se, descobriam sons, criavam formas, pregavam peças nos pequenos bichos… e, ao sabor do vento, espalhava-se o aroma de suas conversas. Foi assim que o menino, de repente no deserto, arrastado para o deserto, no golpe de secura e sede percebeu a nuvem d’água:

– Vento, por onde você passou, que agora lhe sinto o cheiro?

A pergunta lançada ao vento. Distrai a sede. Aquela secura desde o instante do golpe. Fim da festa, fim do jogo. O silêncio como pluma fazendo cócegas. Arranha esquisito o silêncio. Ali, o que é? Pensa o menino. Fiquei de castigo? Não fui jogar bola! Espere, é isso. Agora me lembro. A partida. O futebol. Mas então… que silêncio é este? Nem ligo. Depois vou lá e acerto todas. Bola pra frente, é goooooooooooooool!!!!!!!!!! Foi aí. O calor. O vento, num zunido só. O vento. Fico assim caído no chão. Levanta…! Isso é o Marcelo quem diz. Está sangrando! O Marcelo é um cara engraçado… Ninguém mexe nele, cuidado. Chamem a ambulância. Essa voz não conheço. Foi um tiro… uma bala… perdida. Muitas vozes. A gritaria é geral. Ainda assim, o silêncio. Não quero levantar, está bom assim. O céu: estava tão bonito que parecia uma pintura. Engraçado, na ida com o colégio ao Museu de Belas Artes tinha cada pintura tão bonita… que parecia até de verdade. A gente dizia: esta pintura é tão bonita, parece até que é de verdade. O veludo, o azul. Hoje é o céu que parece até pintura. Uma beleza. A sirene de ambulância quando vem é ó-ín ó-ín….fica fininha. Quando vai é inhó-inhó-inhó. E ela vai, a sirene, grave e triste.

Este silêncio. Ali… o que é? Apanho a caneta e é fácil distrair-me, o gato do deserto passou na minha frente. Foi atrás daquilo que nem vi, o que é? Quando um peixe passa por perto, o urso-pardo o espeta com os dentes afiados. Antes do inverno, ele come o máximo possível para ficar bem gordo. Isso tudo na montanha. E no deserto… Faltou ler a página do deserto. Não cheguei até ali. Na biblioteca ilustrada. La russe. Larousse, é claro que sei como se escreve. A águia não carrega criancinhas pelos ares. Mas ela espreita a marmota que passeia sem olhar para o céu. E também: O cabrito montês tem almofadinhas nas patas de trás, para não escorregar. Eh! Igual ao gatinho da tia Lu. A gata, a Dinorah. Tem almofadinhas nas patas. Um fio do bigode está mais curto do que os outros. Vê-se logo: foi o Vitor quem cortou, pegou a tesoura e záz! E olha que a tia Lu tem todo o cuidado com a Di-no-rah, só corta as unhas da frente (as das patas de trás não corta, para não derrapar). Esse Vitor… diabo-marinho abissal. Tudo bem, da última vez em que estive lá reparei no fio, já cresceu um bocadinho.

– Vento, por onde você passou, que agora lhe sinto o cheiro?

O vento esperou a chuva cair, lá onde a campina extensa abriga de verde os morros. O menino sentiu a nuvem d’água, respirou lentamente. Depois o vento assoviou forte, deu meia volta num elevado de areia e partiu. O menino respirou mais uma vez, queria acariciar o nariz com o frescor novo que ficara em sua face. No entanto, a mesma pálida secura que suportara desde o instante do golpe, desde o fim do futebol.

As orelhas do coelho-do-ártico são curtas, para não congelar. E tem a águia. É uma ave de rapina. Visão penetrante. Asas que planam. Bico curvo. Garras poderosas. Tudo isso na montanha. Nem é bicho brasileiro. Mas teve a visita ao Jardim Botânico. Para o trabalho da escola. O que vinha depois? O lago. O martim-pescador. Foi para o trabalho de grupo sobre o Pantanal. A visita ao museu do Jardim Botânico. Os olhos do jacaré brilham na água de noite. Cuidado com o caçador. Feche os olhos. Não é o caso de – como se diz? ficar de olhos bem abertos. É hora de dormir. Marcelino pão e vinho, no álbum de figurinhas da minha mãe. Martim pes-ca-dor. Quando pega o peixe pela cabeça, é para ele mesmo comer. Se ele o pega pelo rabo, é para dar aos filhotes, pois assim o peixe escorrega melhor pela garganta deles. E o lago? Gordo com bolhas, a água pançuda. As folhas da vitória-régia.

O silêncio sem brisa arranha esquisito, volte a pluma a fazer cócegas.

– Vento?

Num impulso, o menino estendeu a mão para gritar o nome do vento que já ia à distância. Mas seu gesto foi interrompido na tensão de pequenos ombros dentro da roupagem grossa. Reflexo do peso de ter se dado conta de que não havia ninguém. De que ainda estava sozinho. Ele e a miragem, dois únicos pontos no deserto. O vento assoviou. Uma, duas, três vezes. O menino baixou os olhos e ficou indiferente ao outro ponto. Não percebeu que o assovio do vento era um aceno para seguir com ele. O vento ainda o chamou. Pluma e cócegas. Uma, duas, três vezes. Até hoje, do lugar onde o menino antes pousara os olhos, ele o chama. Acesa a esperança, enquanto sentir o refresco da pergunta na ponta da língua. O vento não se cansa, tem respeito ao repouso, não seu, do menino, o vento não pára. Parece que é a areia a copiar o movimento ondulante do capim e das flores. Mas é a campina, lá onde o afazer mais importante do vento é esperar a chuva e um menino…

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