Bolor, casca, escamas e chapinha

De LEANDRO RESENDE.

Nilson olha Nuno.

Nuno ora devolve um olhar ora lê o livro que está em seu colo. Mas lê, na verdade. Alternam olhares em silêncios internos, dança de gestos curtos. Condições opostas, visões diferentes. Um está preso e o outro, não. Um vê as grades pela frente e o outro levanta e vai tomar uma água e um café, lavar o rosto e mijar a água e o café de horas atrás. A urina quente. Uma gota que respinga no seu pé – calça um chinelo de dedos. Volta. Senta, estica as pernas sobre uma cadeira velha e pega a apostila que deixara na mesa ao lado.

O ventilador de teto girava lento fazendo um barulho arranhado sempre que completava a volta, ou seja, a cada segundo e meio ou dois. A sala úmida, as grades descascadas, já quase no ferro grosso. Bolor. A Cadeia Municipal era a sala onde estava Nilson, a cela de Nuno, o escritório do delegado Afonso e a recepção da Bete, onde davam entrada os casos escabrosos, crimes passionais, furtos banais, agressões ou acidentes, sem ou com dolo, e tudo que o padre não resolvia naquela cidadezinha.

Nuno folheia desinteressadamente uma apostila de concurso e, entre uma e outra página de contabilidade geral, encontra tempo para pensar no jovem ali encarcerado: “O que ele espera de mim? Que eu abra esta cela? Para que me olhar tanto? Sou um abajur, uma mesa? Que espera, que eu fale, conte minha vida? Ouça a dele? As pessoas vivem assim, pedindo com os olhos. O que peço pra ele? O que eu peço?”

Nuno descasca a grade. Pouca tinta restava. Cascas, escamas. Pensa em um nome para seu filho que deve nascer daqui algumas semanas. Não o vê condenado, mas pensa em como vai explicar ter tirado essa cadeia.

“Todo mundo erra na vida, meu filho… foi isso”, pensa alto.

“Mas você vacilou geral, né cara?”, retrucou o carcereiro.

Silêncio seco e breve.

“Não é assim. Não é. O que parece é que fui preso, fui mesmo, claro. Eu falei e o delegado me entendeu. Acho que vai me soltar.”

“O delegado Afonso é assim com todos, irmão. Pensa noutra coisa, noutro milagre, reza pra outro santo. Nunca vi esse delegado soltar ninguém. Ainda mais você, um flagrante declarado desse.”

“Humrum. Essa é a palavra, colega. Declarado. Roubei por amor. Tô errado, mas roubei por amor. Você sabe o que é amor?”

Silêncio diante da pergunta vazia do preso.

Nilson cospe no chão, agora desinteressado do assunto e interessado na apostila. Ao lado, uma poça de cuspe vai se formando. Já faz uma imagem, parece uma perna torta ou uma sombrinha fechada. Não, sombrinha não.

Dez minutos depois, Nilson passa da contabilidade geral para legislação trabalhista três. Antes, olha para o preso. Ele está mais cabisbaixo que os meliantes padrões, mais encolhido que qualquer outro hóspede infrator que recebera ali.

Nilson divaga sobre sua profissão.

Pensa silencioso: “A carceragem ensina, aos bons profissionais, a psicologia do gesto e do corpo. Esse garoto, cada movimento dele o absolve, não é ladrão. Muito foda isso, vê um cara se fuder por uma merdinha de nada.”

“Ô garoto, me explica. Caramba, você rouba uma chapinha por amor? Atirar no velhote, esperar a polícia para tentar salvar a vítima? Que cagada é essa irmão?”

“O senhor tem razão. Tudo cagada. Eu me faço essas perguntas toda hora. Mas, vou te explicar. Desde os três anos era vizinho de Soraya. Quando a gente era criança, dançamos quadrilha, estudamos juntos, todo dia a gente se via. Nossas famílias brincavam que íriamos casar, um casal bonito, essas coisas, filhos bonitos e tal. Quando ela fez doze anos mudou para a cidade para estudar e trabalhar. Nunca esqueci dela. Agora, depois de seis anos, voltou, grávida e solteira.”

“Hum.”

“Eu esperei seis anos pra ela voltar. Sabia que ela ia voltar. Voltou e não entendo, estava sempre triste. Eu fui a primeira pessoa a saber que ela estava grávida ainda quando chegou. Sem barriga, quase. Ela chorou. Sabe. Eu pensei, por seis anos, a Soraya vai voltar e vamos nos casar e ser felizes. Ela volta chorando, expulsa da casa da tia. Ela abraçada em mim, era uma dor muito forte. Quis matar o cara, mas ela estava em dúvida, nem sabia o nome do pai. Foi numa festa, ficou com ele e saiu mais uma ou duas vezes, o cara sumiu.”

“Tudo bem, mas e o assalto? O amor?”

“Sim. Deixa eu falar. Eu assumi a gravidez dela. Eu estava preparado para tudo. Sou o pai daquele menino. Combinamos casar, tudo organizado. O pouco dinheiro que eu tinha, comprei um sofá e uma cama. O resto ia arranjando. No aniversário dela, pensei num presente. Aí ouvi ela falar pruma amiga que queria voltar para a cidade, que tinha dúvidas se queria viver ali. E depois disse que queria voltar a estudar e também iria juntar dinheiro para comprar uma chapinha, esse negócio de alisar os cabelos. Sabe, né? Então. Fiquei com aquilo na cabeça. Se der para ela, vai ser o melhor presente do mundo. Ela falou com uma boca tão boa, sabe, da chapinha. Puta merda, era isso, esse, o presente.”

“Aí resolveu assaltar?”

“Era caro. Eu tentei de tudo, dinheiro emprestado, crediário, não deu certo. Eu consegui entrar na loja e colocar a piastra dentro da mochila. Levei embora. Nunca roubei antes. Foi ruim fazer isso. Fiquei mal. Mas, dois dias depois do aniversário dela, um motoqueiro parou e disse: ‘Os caras têm imagem de que você roubou a loja do seu Antônio. Vão te pegar. Paga ou vão te pegar, vão te matar’. Pagar como?”

“Aí resolveu matar ele?”

“Não. Noutro dia, outro motoqueiro disse. ‘Eles vão te denunciar’. Pensei, porra, o pior não é a cadeia, é perder a Soraya. Aí, desesperei. Procurei o seu Antônio para pedir desculpa, pagar pelo meu erro, trabalhar de graça. Eu tava muito preocupado com o meu casamento indo por água abaixo. Mas ele foi bruto, cavalo, me agrediu com palavras e disse que iria ligar para a polícia. Turco filho da égua, da puta, da desgraça. Ele ligou. Quando eu quis sair, ele me barrou com um trinta e oito na cintura. Forcei para sair e ele me empurrou. Agarrei nele, ele em mim. Na luta, o revólver disparou, bem na barriga dele. Eu não dei conta de fugir, fiquei dando socorro pra ele. A polícia chegou e me levou. Eu disse que fui eu. Depois de um tempo, dois dias eu acho, fiquei sabendo que ele morreu.”

“História foda a sua, moleque.”

“É, parece mentira. Mas para mim é uma história totalmente possível. Espero que o juiz pense assim, que minha palavra é possível.”

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