Sísifo

De LÚCIA BETTENCOURT.

“Longtemps je me suis couché de bonne heure…”

As letras não faziam sentido para ele. Tratava-se apenas de um “l”, seguido por um “o”, “n”, “g”, os olhos ardiam, as pontas dos dedos perdiam a maciez e o tato. “C”, “o”, “u”, outro “c”, as teclas se abaixavam dóceis, e na tela as letras apareciam, sem que ele sequer as olhasse.

– Como é que você sabe que está fazendo a coisa certa? – perguntavam-lhe.

Ele dava de ombros, indiferente. Como saber o que é certo ou errado, quando nada faz sentido?

– Isso é trabalho da revisão.

Indiferente ele seguia, outras letras, outros sinais.

“? Encontraría a la Maga?”

Um ponto de interrogação virado de cabeça para baixo, “e” , “n”, “c”. Ele não se perguntava quem estaria por trás da Maga, nem ao menos se dava conta de que era Maga, o que escrevia. Não procurava respostas, nem tinha curiosidade. Limitava-se a teclar as letras, umas após as outras, num fluxo incessante e indiferente.

A cada dia o computador se entregava a seus dedos, as teclas negras, os sinais brancos, que, num impulso eletro-mecânico se transformavam em sinais negros numa tela branca. Ele não estava ali para testemunhar milagres como esse, mal olhava para o teclado, para a tela. Seus olhos seguiam as letras nas páginas, e recomeçavam:

“Rubião fitava a enseada – eram oito horas da manhã.”

O horário, em si, era indiferente. Ele não queria saber quem dormia cedo, quem acordava cedo, quem procurava quem, nem onde.

Os dedos ligeiramente encurvados pressionavam com força desigual as teclas, mas o resultado era sempre o mesmo. A cada tecla, ou conjunto de teclas, um novo sinal na tela, e o aviso de prontidão sempre piscando, alerta, aguardando.Mas ele sentia-se entorpecido, e, no entanto, continuava:

“A cidade sempre um pouco mais longe de Deus.”

Não discutia a relatividade da palavra longe, nem se preocupava com o nome de Deus. Só precisava ser fiel à caixa alta, opção do autor, não dele. Por ele, escreveria tudo em minúsculas, menos uma tecla a pressionar.

“Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead…”

Traduzia-se em “s”, “t”, “a”, outro “t”, e era assim que passava os dias. Letra após letra, sinal, após sinal, ele movia a montanha do conhecimento, alimentava a máquina devoradora de sinais, como outrora maquinistas haviam alimentado as caldeiras dos trens com carvões. Àqueles homens não lhes importava se iam ou voltavam: seu trabalho era alimentar o monstro que fumegava pelos caminhos traçados na terra em linhas mais ou menos retas, mais ou menos curvas.

Esse novo cíclope, exigindo alimento constante, mostrava seu único olho sempre aberto, e nem sequer dormia, num apetite que o mantinha aceso, inclemente. As letras se sucediam, letra, letra, espaço, sinal. Ele cansava suas costas, fatigava seus olhos, entorpecia os dedos. Fechava livro após livro, terminado, gravado, mas logo surgia outro, as páginas ainda húmidas, como um recém-nascido.

“Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras…”

Ele mesmo, embrutecido, não saberia nunca onde se localizavam as terras possuídas, nem se esse filho, nascido em terceiro lugar, chegaria a herdá-las. Para ele não havia filhos, nem terras, nem propriedade. Para ele só existiam os sinais, “caixa alta”, “k”, “a” , “r”. Existiam as dores nas costas, os dedos e olhos inflamados, as teclas do computador, negras, o cíclope com seu olho, branco, que tudo via, e que nada via, mas ingeria.

“Nel mezzo del camin…”

De nada lhe servia escrever “m”, “e”, “z”, outra vez “z”, “o”, quando para ele não existia a tarefa finda. Se não havia um fim, como chegar ao meio? Mas ele nem sequer se perguntava isso, os sentidos embotados pela repetição, as letras brotando indiferentes da pressão de seus dedos, se agrupando em palavras e frases, em histórias que ele não lia.

Na tela as letras apareciam: “n”, “o”… Os dedos dormentes se dobravam e pressionavam as teclas, com forças desiguais, resvalando entre os espaços, com enganos corrigidos por instinto, ou deixados ficar ao acaso. “Alguém há de fazer a revisão”, ele pensava, e dava de ombros, continuando o que precisava ser feito. E seguia, “n”, “a”, “d”. O cíclope faminto se deixava alimentar, exigente, mas dócil. Seu único olho sem piscar, sempre iluminado. “A”. “.” A palavra permanecia na tela, a seu lado o cursor pulsava, expectante. Ele já não podia mais.

“Nonada.”

– Amanhã recomeço.

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