Dia de vestibular

De ANA CARDILHO.

Ela tem quarenta e oito anos. Acordou com essa suspeita. Confirmou ao passar os cremes que o período da manhã exige, além do filtro solar.

Hoje, ela gastou uns minutos a mais, diante do espelho. Há sempre novos sinais, rugas jovens, outras velhas conhecidas, marcas de um tempo que, ela jura, não sentiu passar. Sentir não é o seu forte. Sara trabalha com números, tabelas, comparações exatas. Duas rugas novas somadas às quarenta e oito anteriores a levam a um número objetivo, par. Cinqüenta. Esse é o número que mais a preocupa. Uma parte dela, que não se desenvolveu por completo, escondeu o talento, ficou acuada e quase atrofiou, tem um olhar subjetivo e ainda tenta sentir alguma coisa. Esse apêndice, esse membro-fantasma, vem ganhando espaço e deu para incomodar. Quando Sara, hoje dona Sara, completou quarenta anos, ganhou de presente a certeza de que algo havia mudado. “Rápido e indolor”, pensou. Desde então, a voz se manifesta. Seu assunto preferido é enumerar as razões para romper o casamento, não se importar mais com os filhos e fazer tudo diferente. A voz, apesar de apoiar-se em sentimentos, sensações, impressões e desejos, aprendeu algo com o todo e para dar força a seus argumentos usa números. Sussurra: “seu casamento envelheceu 26 anos, seu marido completou sessenta, o filho mais velho tem vinte e quatro, o mais novo fez dezoito, e você, desde os quarenta, sabe que vai morrer primeiro que eu. Só vou depois. Segundos, é verdade. Mas, mesmo assim, depois. Até o último suspiro você vai ouvir minha voz. Cobranças. Perguntas. Por que não ousou? Por que desistiu? Por que espera?”. Ela começa a secar os cabelos e joga ar quente na voz. Embaça o som. Se ainda fumasse, parou aos trinta e cinco, poderia jogar fumaça na voz, engasgá-la. Com o vento do secador, a voz deve tossir um pouco e por um tempo ficará quieta. Nem é grande vantagem. O que está dito, fica.

Sara sabe o que precisa. Foi feito um acordo e o tempo se esgota. Com esse eu-assombrado, que apareceu no aniversário de quarenta, ela fez um pacto. Nada seria tocado, mudado, transformado até que ela completasse cinqüenta anos. Tempo para engordar o marido, criar os filhos, encaminhá-los, arrumar a casa, deixar uma quinzena de pratos congelados no freezer, trocar as camas, deixar água fresca na moringa da cozinha, colocar as contas do mês em débito automático e ir-se embora. Antes da seis da tarde, para evitar o trânsito pesado. Boa negociação. A voz concordou e só vez ou outra aparecia com os bolsos cheios de palpites. Nesses momentos, Sara exercitava a paciência. “Sim, seu marido era ausente. Sim, ele tinha amantes. Não, nada de sexo entre eles. Não, ela não sentia falta. Não com o marido. Sim, tinha fantasias. Professores de academia pingando testosterona, solitários tomando café antes do cinema, o dono da banca de revistas. Esse gay. Mas, no seu desejo, isso não fazia diferença. Ele era charmoso, melancólico, elegante. Nas suas fantasias de banho demorado, viagens do marido, fins de tarde ociosos, o dono da banca de revistas não negava ser gay mas encontrava nela algo de masculino para desejar. Certamente seu talento com números, tudo tão certo e racional. Nada intuitivo. Dois orgasmos eram dois prazeres e não fazia diferença de que modo eram conseguidos. Eram dois e bastavam.

O tempo se esgota. Ela tem quarenta e oito e hoje é dia de vestibular. O filho mais novo, Samuel, fará a última prova da segunda fase. Está confiante. Foi bem nas provas anteriores. Só falta essa. A última. Aluno aplicado. Vai conseguir. Presta odonto. O mais velho, Vitor Júnior, é advogado e trabalha com o pai, Dr. Vitor. Se não fosse por Samuel, que Sara reconheceu desde sempre perigosamente mais frágil, ela poderia ter antecipado a mudança. Foi ficando e fortalecendo esse filho que chorou mais, caiu mais, sofreu terrores noturnos na infância e até hoje é tímido com as garotas. Colocando o filho na universidade, Sara dá por finalizada sua tarefa de mãe. Daí para frente pode ser amiga, confidente, pode dar conselhos eventuais mas não quer mais o papel de mãe. Assim que o nome dele, impresso na lista dos aprovados, comprovar o que ela já sabe, que ele vai conseguir, Sara abre o zíper e já se vê tirando a fantasia de boa mãe. Volta a ser uma mulher e, desta vez, se deseja sem marido.

A voz toma fôlego e até ela se assusta com a determinação que essa mulher demonstra, olhando no espelho, passando batom, borrifando perfume sobre a blusa discretamente florida. Tem quarenta e oito anos e está viva. Mantendo a saúde, calcula, pode chegar aos setenta com vitalidade. Acima de tudo quer manter-se lúcida, driblar a herança genética. Sara pensa na mãe, na mulher que ela viu definhar. A decadência física demorou. Primeiro vieram os sintomas neurológicos. A mãe ficou esquecida, começou a trocar os nomes dos filhos e em pouco tempo já não sabia ver horas, identificar nomes de objetos. Foi quando a família percebeu que ela não sabia mais ler. As letras nada diziam àquela senhora de setenta e cinco anos. Ela folheava livros, jornais e revistas e mantinha o mesmo vazio nos olhos. Depois disso vieram os silêncios. Pausas nas conversas, risadas sem motivo, sono. Quem cuidaria da mãe? Com que filho ela iria morar? Enquanto a família buscava soluções, pesquisava preços de clínicas para idosos, pensava em construir um quarto a mais na casa de um ou de outro, a mãe de Sara entregou as armas. “Derrame e coma”, disseram os médicos. E mais dois meses se arrastaram até que os órgãos faliram e a mãe partiu. Sem despedida, silenciosa. Depois de desaprender a ler e a falar, Sara achava que a mãe havia esquecido de como manter o instinto básico da sobrevivência. Tudo perdido, ela se foi e o eu-fantasma de Sara aproveitou a ocasião para avisar: “Olha o tempo. Quer acabar assim também? Sem memória, sem linguagem, sem história?”

Samuel bate na porta do banheiro e pergunta se a mãe está pronta. Ele está aflito, quer chegar cedo ao local do vestibular. Tem medo de atrasos. Tem medo de quase tudo esse filho não-planejado. Sara já se perguntou se isso poderia ter influenciado na personalidade do garoto. Ele saberia, de algum modo, que veio sem ter sido chamado, foi aceito mais por moralismo que amor? Sara, hoje, gostava do filho mas tinha frieza suficiente para admitir que ele era um intruso. Por mais que se esforçasse, ela não conseguia sentir aquele amor incondicional que via em outras mulheres. Tudo pelos filhos, a prole acima de todos. Mães apagadas só para que brilhassem as novas vidas. Ela cuidou bem dos garotos, envolveu-se até onde foi possível mas agora precisava distanciar-se. Até para refletir se poderia amá-los daqui para frente. Eles adultos, suas esposas, seus filhos.

Falta de ar. Era isso que Sara sentia quando pensava em netos e em como eles poderiam atrapalhar seus planos e como poderiam, de repente, envolvê-la e convencê-la a desfazer as malas que estão no armário. Desde os quarenta anos, Sara compra alguma coisa para completar as malas que deve levar no dia da partida. Não estão escondidas, apenas guardadas. O marido jamais buscaria algo no armário da esposa. Talvez nunca o tenha aberto. Ele não tem tempo para miudezas.

Sara abre a porta do banheiro e lá está Samuel. O cabelo tão curto, o rosto magro. Tomar sol poderia fazer bem ao adolescente mas ele não gosta de praia e clubes. Tem vergonha de ficar sem a camiseta, não gosta de andar com chinelos. Samuel precisa de roupas, meias, tênis. Manto fechado para a esfinge. Samuel, o solitário, ouvindo música no quarto, lendo intermináveis romances, estudando, escrevendo, existindo via Internet. Virtuais seu sol, sua chuva, qualquer vento que pudesse sentir. Virtuais suas amizades, sem rosto, sem cheiro, nomes possivelmente falsos. Samuel é seu próprio avatar. Sara sorri ao filho, diz que está pronta e eles saem.

No carro, ele não tira os olhos da apostila. Ela não interrompe. Deixa o filho estudar, que ele se apegue ao desejo de entrar na universidade, que ele siga uma profissão solitária. Vai passar os dias sem necessariamente ter que falar com os clientes. Pode dar bom dia, fazer o orçamento, comunicar o preço e marcar a próxima consulta. Se não quiser, se não conseguir, não precisa ir além. Pode ter uma secretária simpática, falante, que converse animada com os clientes, faça as cobranças e compras, organize sua agenda, sirva-lhe café, de vez em quando. Samuel pode até se casar com essa moça. Seria perfeito. Ele estaria salvo em seu mutismo, olhando dentes, o que há dentro dos dentes, os nervos, raízes, dor. Dr. Samuel poderá sorrir às vezes quando conseguir matar a dor do cliente desesperado. Ponto para sua habilidade. Vai matar nervos alheios para compensar os nervos que não lhe afloraram nunca. A dor que ele nunca deixou latejar de verdade. Ele é o quarto molar. Não poderia ter nascido. E, no entanto, está ali, no banco do passageiro. Lê a apostila e mastiga uma barra de chocolate meio-amargo.

Na porta da escola, Sara arrisca um: “Boa sorte, filho!”. Ele engasga um riso sem ânimo e se mistura à multidão de adolescentes que seguem para o matadouro. Diz “filho” e sente remorso. Tem a palavra na boca mas lhe falta o sentido. “Será que o processo já começou?”, pensa, lembrando-se da mãe. Quando for como a mãe, e Sara sabe que será, talvez não sinta nenhum incômodo por não se lembrar de que aqueles dois rapazes são seus filhos. Dentro da cabeça dela não haverá mais culpa, nem frustração. Vai olhar os moços, achá-los bonitos, saudáveis, mas terá a bênção do não-reconhecimento. Nenhuma preocupação, nenhuma ansiedade. Do marido ela esqueceu faz tempo. Não sente nada por ele. Nem mesmo compaixão. Reconhece sua infelicidade conjugal, sabe que ele se esforça para manter a aparência de bom marido, bom pai e bom amante com mulheres alheias. Tanto esforço e ele envelhece. Ela vai partir, as amantes com o tempo também. Talvez lhe sobrem os filhos, algum apego, respeito, amor filial. Talvez os meninos sejam generosos e paguem a ele uma enfermeira ou a mensalidade de uma casa de repouso. Talvez ele dê sorte e morra com Vitor Júnior segurando sua mão, Samuel no canto do quarto, disfarçando o choro. Talvez ele seja enterrado no mausoléu da família e ganhe flores uma vez por ano. Finados. Sara quer estar longe quando isso acontecer. Ela não quer os filhos por perto e muito menos uma vaga naquele cemitério de filme de terror. Estátuas de anjos assombrados de dois metros de altura, anjos cobertos por véus de cimento, anjos sem olhos. “Quem comeu os olhos do anjo, mamãe?”, perguntou um Samuel criança durante o enterro da avó. “Os vermes. Os vermes comeram os olhos do anjo”, respondeu Sara e teve que agüentar o choro de Samuel que dizia que os vermes comeriam os olhos da avó também.

Quarenta e oito anos. Essa é a idade de Sara neste último dia de prova da segunda fase de seu segundo filho. Ela dirige mantendo a velocidade permitida de sessenta quilômetros por hora. Ela está num bairro onde nunca morou mas que há anos visita em passeios de carro. Ela estaciona no começo de uma rua arborizada. As casas são grandes, bem construídas. Portões de madeira, portões vazados, jardins, floreiras, cachorros. Um boa rua, com boas casas, boas famílias. Ela caminha pela rua, sem pressa. Passa diante de uma casa com muros verdes e volta para o carro. Sara viu que a janela está aberta. Ela calcula que tem tempo. Dentro do carro, fecha os vidros escuros. Mal pode ser vista. É apenas uma mulher dentro de um carro estacionado no começo de uma rua. Poderia ser alguém esperando um amigo, para almoçar. Poderia estar perdida, consultando o guia, ou alguém que aguarda o guincho depois que o carro quebrou. Poderia ser uma motorista cansada de uma longa viagem dando um tempo antes de prosseguir. Poderia ser a moradora de alguma das casas esperando a filha sair para prestar o vestibular. Uma filha. Não uma adolescente de dezoito anos, uma menina começando a vida. Mas uma filha de vinte e oito, prestes a fazer uma segunda faculdade. Talvez para mudar o rumo profissional, talvez para sentir-se ainda jovem.

É isso que Sara é dentro do carro de vidros escuros, estacionado no começo da rua, com plena visão da casa de muros verdes. É a mãe da moça que se chama Cássia e que se prepara para a última prova da segunda fase do vestibular. O nome não foi Sara quem escolheu. Ela só escolheu a ruptura, a distância, o não ser mãe daquela menininha que nasceu quando Sara tinha vinte anos. Nasceu de sete meses, dificuldade para respirar, fora de peso. Um mês na UTI do hospital, dentro de um berço isolado, cheio de fios, fechado. Sara só tocou a filha com luvas. A criança não podia sair dos aparelhos, não podia correr o risco de entrar em contato com o ambiente carregado de germes. Era um bebê numa bolha de sabão. Pequenina, magrinha, com os olhos protegidos, sonhando uma vida melhor. Recebia o leite por uma sonda. Sara nem se deu tempo. Não sentiu o cheiro da criança, não esperou para pegá-la no colo, para vê-la com os olhos descobertos. Ao contrário do que deveriam dizer seu instinto maternal, seus hormônios, sua piedade, seu papel de mulher no mundo, Sara disse não. Entregou a responsabilidade de criar a filha ao primeiro marido, com quem vivia desde os dezoito anos. “Não posso, não quero, não vou discutir.” Três nãos e o primeiro homem de sua vida entendeu que eles eram o bastante para que ele começasse a salivar de ódio por aquela mulher. Ele poderia entender, com alguma dificuldade pois amava Sara, que ela o deixasse. Eram jovens, ele estava no início da carreira, tinha que estudar e trabalhar e quase não sobrava tempo para ser um amante constante. Mas, abandonar a filha? E uma filha numa situação delicada? Um bebê nascido antes do tempo, que deveria chorar com os pulmões sadios, dar os primeiros arrotos depois das mamadas, ensaiar sorrisos para a alegria dos pais, e estava trancado numa caixa aquecida, transparente, ouvindo bips de monitores cardíacos, sendo manipulado por luvas, furado para injeções e sondas, uma criança que ainda nem havia aberto os olhos!

Os três nãos foram ditos por Sara e aceitos. Ela foi embora, a criança ficou no hospital, sobreviveu, e foi criada pelo pai. Esse homem que odiou Sara em silêncio, e ela sabia, esse tipo de ódio é bem mais intenso, bem mais perigoso, nunca mais deu notícias, nunca fez pedidos e reconstruiu a vida com um novo casamento e irmãos para Cássia. Sara, apesar de ter escolhido pela separação e pela negação, mantinha um fio invisível que às vezes puxava e na outra ponta havia alguma informação. Número de telefone registrado no nome dele e daí Sara conseguia um endereço e tinha como ver, à distância, uma menininha meio loira que parecia crescer saudável, nos braços de uma mãe postiça. Dr. Vitor nunca soube que foi o segundo marido e que Júnior e Samuel tinham, na mesma cidade, uma irmã mais velha chamada Cássia. Se alguém contasse a ele essa história, ele daria risada, e, se insistissem, ele, irritado, ameaçaria o interlocutor com um processo de calúnia, difamação ou o que mais coubesse na lei. Só Sara sabia. Nem sua mãe havia partilhado desse momento. Era uma fase em que as duas não se falavam, brigadas. Sua mãe nunca gostou do primeiro marido e declarou-se satisfeita quando Sara voltou para casa. Um pouco gorda, inchada, mas se sua mãe, por algum instinto, percebeu que ela havia acabado de ter um filho, nada disse. Dissimulou. Logo veio Dr. Vitor e esse sim contava com a admiração da sogra.

O portão da casa de muros verdes se abre e por ele sai uma moça. Ela usa um vestido claro, largo, e calça sandálias baixas. Tem os cabelos compridos, castanhos num tom claro, soltos, recém-lavados. Carrega apenas uma bolsa preta. É Cássia. Sara sabe. Por nada em especial, mas sabe. Ela caminha em direção ao carro, Sara abre o vidro e a vê passar. Tão perto que poderia abrir a porta do carro e segurá-la pelo braço. Cássia é atraída pela desconhecida e olha para ela incomodada. Sara foi notada, está presa no olhar daquela moça que não se parece com ela e ao mesmo tempo tem até seu jeito de andar e de carregar a bolsa concentrando a tensão no lado esquerdo do corpo. Sara precisa dar alguma naturalidade à cena e pergunta: “Por favor, pode me dizer as horas?” Cássia relaxa. É apenas uma mulher pedindo uma informação na rua. Ela olha para o relógio de pulseira escura que usa no pulso direito, exatamente como sara usa, e reponde: “Onze horas”. Mãe agradece, filha não diz mais nada e se apressa para pegar um ônibus que passa na avenida, na esquina da rua onde Sara ficou.

Onze horas. Mas poderia ter dito qualquer número, qualquer hora serviria para a conta que Sara inventa. Samuel, dezoito, vai passar na segunda fase, Vitor Júnior, vinte e seis, segue os passos do pai e Cássia, vinte e oito, está bem. Como sempre esteve desde que Sara a viu pela última vez conectada a fios numa caixinha transparente.

Sara liga o carro e segue para casa. Vai mesmo antecipar em dois anos a promessa feita aos quarenta. As malas, desde muito, estão prontas. É só partir. E será hoje. Antes das seis da tarde.

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Ana Cardilho, escritora, jornalista, corredora. Finalista do Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis-2007. Editora do Programa Opinião Nacional/TV Cultura-SP. Atualmente, aquece os músculos para participar com a galera da São Silvestre-2008.

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