Os mortais

De JOÃO PEDRO.

Isso tudo aconteceu no século XXIV. Já então não se morria; ou melhor, morria-se, mas não era de morte morrida. Para mais de cento e cinqüenta anos que a sociedade havia se acostumado com tal avanço. A primeira geração que o recebeu naturalmente vacilou: compôs argumentos, financiou pesquisas, emitiu relatórios, esbravejou, mas não havia maior tentação aos mortais que a imortalidade. Levando-se em conta, claro, que não era qualquer modo de não morrer, pois já se encontravam sob pleno acesso toda sorte de remédios e vacinas para qualquer tipo de doença conhecida ou esperada. Sim, com o desenvolvimento da matemática de bases quânticas aplicada à biologia, à química e à física, os cientistas puderam, por meio de determinadas fórmulas, antever a evolução dos organismos. Muita coisa de Darwin aproveitou-se, mas foi como se estivessem pegando terra para construírem uma estátua: havia de ainda ser acrescentada água e areia, talvez cal, modelada, metida no forno, retocada e enfim colorida. Daí então colocaram a peça na praça, com grande euforia transmitida pela imprensa – que naturalmente já não era tão impressa.

Quando isso tudo aconteceu, no século XXIV, o monumento já vinha desbotado e tinha nos ombros e nos pés os indícios das outras utilidades que lhe foram dando os pássaros e os mendigos. Não era, pois então, qualquer modo de morrer. Morria-se unicamente por vontade; eutanásia era arcaísmo nos dicionários, como também a medicina, que por um longo tempo se limitou à manipulação de softwares. Tais programas foram se tornando cada vez mais didáticos, os conselhos de medicina contestavam, faziam lobbies; tudo em vão.

Morria-se como em longínquos anos se resolvia casar. Quero dizer, só podiam dispor da própria vida os maiores de uma certa idade. Já há muito haviam abandonado o estabelecimento de limites fixos para eleitores e imputáveis criminalmente. Receptores especiais promoviam o acompanhamento ininterrupto da vida captando as ondas irradiadas pelo indivíduo; aplicando tais dados a determinadas fórmulas ortoquânticas – nome dado à terceira e última fase do desenvolvimento da quântica – se estabelecia o momento certo para cada fase da vida. O que as leis faziam, portanto, era estabelecer os crimes e as penas de acordo com essas fases. Sim, os crimes não acabaram, o que não deixa de ser um pleonasmo, já que a própria existência de um direito depende do reconhecimento da ilicitude; isso é dizer que, conforme foi assentado pela filosofia durante os séculos, uma sociedade é simplesmente impossível sem criminosos. Sem dúvida havia o índice ótimo de criminalidade, e foi lá pelo fim do século XXI que a ciência logrou alcançá-lo e estabilizar nele a sociedade. O que fizeram foi simples: criminalizando certas condutas aqui, descriminalizando outras ali, como quem busca o equilíbrio numa balança, chegaram nele, o dito índice. Não se tentou mudar o indivíduo, mas adaptar as regras a ele; de escravos fizeram-se senhores das leis. Outra revelação importante foi a de que o mundo não iria acabar tão cedo, ao contrário das temeridades dos séculos precedentes ao XXI. Mais tarde os historiadores identificaram no fim daquele período uma paranóia coletiva, marco da decadência do ciclo religioso da humanidade; ou seja, como em todo processo de declínio certas características se agravam e tomam conta da sociedade, a tal paranóia coletiva deveu-se ao exagero quase desesperado do sentimento de culpa fermentado pelas religiões que dominavam o pensamento dos povos de então. É verdade que isso foi acentuado pela euforia exercida pelo que chamavam de “globalização”, nome que deram a um já antigo movimento em virtude do incremento da velocidade nas comunicações e nos transportes. Pois então o mundo não acabou como temiam os paranóicos porque, como se verificou depois, aquilo que antes era apontado como o sinal do fim, as grandes manifestações da natureza e do planeta, era tão somente o sistema de defesa da Terra; comparando, era o planeta combatendo uma doença qualquer; logo se curou. O homem se safou da extinção quando percebeu que era ele o vírus causador e, ao invés de se deixar destruir, usou sua inteligência e as revelações da ciência para se adaptar ao esquema do planeta. Antes disso houve quem dissesse com toda convicção, embora sem nenhuma razão, ser o homem um vírus HIV da Terra; tal vírus causava a AIDS, doença que surgiu no fim do século XX e matou milhões de pessoas durante mais de vinte anos. É que, diferentemente dos tempos seguintes, em que os remédios se tornaram plenamente acessíveis e podiam ser produzidos por qualquer pessoa, naquela época a então chamada indústria farmacêutica ocultava drogas, ou se poupavam de pesquisá-las, por razões unicamente financeiras. Então quando tudo isso aconteceu, no século XXIV, os remédios e as vacinas eram produzidos por eletrodomésticos, já alimentados com os dados dos “pacientes” proprietários e da matéria prima adquirida facilmente. É bom esclarecer que a existência de remédio se devia não a um defeito nas vacinas, mas à natureza humana: desleixada e preguiçosa, que não mudou nunca.

Mas já então, no século XXIV, não se morria, pelos menos não de morte morrida, porque cada um levava consigo um engenhoso mecanismo de manutenção provisória de vida. Com ele, o corpo mantinha-se vivo após acidentes e atentados até que fosse levado a um centro de reconstituição, onde um aparelho, já reconhecendo o paciente, recompunha-lhe os órgãos danificados e lhe infundia o sangue e o medicamento necessários.

Enfim, isso tudo aconteceu quando o sujeito próprio se decidia pelo momento da sua morte. É bem que, como em todas as outras fases pelas quais atravessasse a sua vida, ele era avisado quando chegava o momento tido como ideal para se morrer, ou seja, antes de que as melancolias da vida se ocupassem inteiramente dele – considerados, claro, individualmente, de modo que a uns a sugestão chegava logo no primeiro ou segundo decênio de vida e a outros demoravam para mais de século. Era, no entanto, mera sugestão: cabia a cada um decidir por si o seu momento; o que pouco acontecia: coisa rara era alguém morrer antes ou depois do aviso. Na maioria, maioria mesmo, o parecer vinha somente coroar o instante da morte, tal era a precisão das fórmulas. Os que fugiam à regra era porque, invariavelmente, haviam sido influenciados por alguns fatores estranhos, imprevisíveis; não que todos os fatores estranhos fossem imprevistos, mas um ou dois, já identificados, eram impossíveis de serem entabulados nas fórmulas, sendo que a impossibilidade de assumi-los não representava motivo de indignação. Desse mesmo modo, um ou outro confessava aos amigos que havia decidido não morrer, normalmente homens sem filhos; mas essa resolução não acabava por não durando uma eternidade, pois logo se constatava na prática a desgraça da imortalidade, já de antemão propagada pelas teorias. A vontade ia se arrefecendo logo com a partida das primeiras pessoas queridas, perdia um pouco mais de vigor com o vislumbre da repetição das gerações e, no caso de artistas mal sucedidos, desaparecia por completo quando perdiam na eternidade uma certa esperança de sucesso póstumo. Era nesse momento que chegava o segundo aviso; como diziam na época: “quem o um ultrapassa, do dois não passa”.

Mas isso tudo acontecia no século XXIV, quando então já não se morria, não ao menos de morte morrida.

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João Pedro, 24 anos, mineiro de Itajubá, é advogado em São Paulo. Mantém o blog QSEDQ.

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