Velório provisório

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Chegara do enterro. Um amigo não tão próximo, um conhecido benquisto. Nas desobrigações da política, dissera as palavras óbvias e necessárias.

Agora essa mulher baixa e mirrada à sua frente apelando para seu fervor de homem crente, de cristão temente a Deus.

Um homem de bem, bem posto na vida, vida regrada, mas todos têm sua hora. A dele chegou. Precavido, há muito comprou túmulo perpétuo. Mania de não dar trabalho. Tudo ali no bem contado, no muito bem pago, com recibo e dinheiro vivo. Uma honestidade. E professa toda religião. Sempre no culto dos Batistas a ouvir as salvações, sem falta nas missas das manhãs de domingo, nem nos bumbos de xangô na sexta à noite, diz que é para balançar com a mesa branca que assiste toda quinta de tardezinha. Homem de muita fé. Aposentado, reza pra vencer o tempo. Anda léguas para as obrigas da religião. Diz que para se chegar a Deus qualquer caminho é caminho. Por isso gostaria que o senhor encomendasse a alma do coitado. Não importa sua crença. Apostólico romano, nova-seita, de xangô, dos espíritos, pra qualquer santo a encomenda seguirá correta. É viagem curta, daqui até o Muriquem. E como ainda não deu a hora do almoço, o senhor vai e volta no hoje mesmo. Tenho um carro de praça na espera. Peço porquê não encontrei no Muriquem quem desse cabo do serviço. Vida de atraso é aquela, sabe? Vim buscar o padre, mas gostei de seus dizeres no cemitério. É uma caridade cristã.

A mulher frente ao Senador inspirava compaixão, mas até o Muriquem são trinta quilômetros. Viagem curta que se encomprida nas irregularidades do caminho de terra batida. As verbas do asfalto perdidas no cipoal da burocracia.

Pedia-lhe um gesto de piedade. Encomendar um defunto a Deus. Tinha fé para tanto? As dores da política. Se embrenhar em sertões infindos, engolir poeira, falar para reis e plebeus, doutores e mendigos. Saber a palavra exata para cada sonho e necessidade.

Quais palavras tocariam a sensibilidade de Deus?

Preciso beber um pouco de água, minha senhora. Volto logo.

E se embrenhou na escuridão refrescante da casa do compadre com a intimidade de anos de convivências e conchavos.

Quem é essa mulher? Alguém conhece?

A mesa dos correligionários era toda uma ignorância.

Só uma voz se ouviu.

Esse povo do Muriquém é esquisito.

Lá fora a mulher o espera.

Eu vou. Isso me custa pouco.

Mas o senhor tem uma palestra no ginásio logo mais à noite e mais…

Dará tempo. Eu vou.

Decidido, apanhou o chapéu. Vestiu outra vez o paletó branco usado em outros vários enterros.

Um custo, a viagem. Acabado o calçamento irregular de paralelepípedo começava a irregularidade do chão batido, o sufocamento da poeira levantada, o sol a cozinhar o juízo. A sonolência, a modorra, a preguiça. A roupa colando na pele com suor e areia fina.

As dores da política.

Não imaginara o Muriquem assim intenso em miséria. Ruas descalças, vento a soprar o nada, esgotos ao léu, um burro deitado sob a única sombra, meninos nus.

Diante da desolação, o Senador sentiu apenas fome. Chegara a hora do almoço. O sol, o mormaço, o fedor constante.

Um enterro também paupérrimo. Caixão barato, flores colhidas nos arredores, defunto sem algodão no nariz, uma mosca voando tonta e as velas postas em castiçais antigos alumiavam o ambiente de pouca luz.

Uma garrafa pousou na firme mão senatorial. Não beber seria desfeita. A porção açucarada deslizou sem dores nem remorsos pela garganta.

Uma inçelênça entrou no paraíso…

O canto monocórdio, as carpideiras, os pífanos, o zabumba, o calor – tudo uma conspiração de dor e monotonia.

Outra vez a garrafa.

Ouviu, sem muita clareza, um suspiro do defunto. Controlou o espanto.

Minha senhora, preciso ir. Tenho compromissos. Podemos abreviar o velório?

Só mais esta oração, moço.

Novamente a garrafa e tudo ganhava leveza. O rosto do defunto traduzindo serenidade, cara de bons amigos.

Como se chama o falecido?

Gumercindo Santos.

Vários os goles da doce bebida enquanto se tecia a extensa oração.

Tudo se passava em lenta malha diáfana.

Quatro homens dispostos fecharam a tampa e tomaram o caixão. O cortejo ganhou as ruas. O Senador seguiu ao lado da mulher franzina, a viúva que se vestia com um preto intenso. Pessoas circunspectas nas calçadas e o Senador garbo de si. O sol o incomodava. O suor lhe escorria do rosto. Mantinha-se ereto.

Homens e mulheres se espremeram pelas alamedas estreitas do cemitério. Os quatro carregadores pousaram o peso do caixão sobre um breve monte de terra, uma cova ainda fechada.

Povo estranho esse do Muriquem.

Aqui está, Senhor, diante de ti o amigo Gumercindo, o corpo inerme no inevitável passamento.

Pouco pôde ir adiante, o Senador. Já sua voz se embargava e havia um movimento além do natural em tudo. Uma emoção desmesurada. O mundo desaprumado em seu eixo.

Que Deus tenha piedade de sua alma. Rezemos a oração que Nosso Senhor nos ensinou.

Parou de falar e ouviu a reza estendida em ladainha.

Pai Nosso que estais no céu…

Quando vieram os aplausos, os homens abriram o caixão. O ex-defunto levantou sob o olhar perplexo do Senador.

O que vocês me deram para beber?

Doutor, obrigado por tudo. Há muito trago a certeza que passaria nas horas de ontem. Não pude perder os preparativos. Agora to feito pr’um velório definitivo.

Entre o susto e a surpresa, preferiu recusar o resto da festa.

A bandinha se afastava tocando um frevo miúdo e as pessoas conversavam com normalidade.

Sem que ninguém o reconhecesse, o Senador começou a conhecer sua gente. E tomou o caminho de volta.

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