A morte alheia

De HENRIQUE RODRIGUES.

A cobra. A menina. A estrada. A cobra enroscada na menina que seguia pela estrada. A estrada. A sucuri de cento e vinte quilos levando a menina de vinte e nove quilos para a mata espessa. O grito da menina sobre a estrada.

O jovem que seguia pela mesma estrada. A menina arrastada pela cobra sobre a estrada. A cobra e a expectativa inocente do dever cumprido. A menina inocente e o grito de instinto por se manter na estrada. O jovem nessa mesma estrada e o golpe de inocência sobre a cobra. O espasmo da cobra e a espremida involuntária na menina. O grito mais alto da menina. A enxada do jovem com mais força sobre a cobra. O delírio e o átimo da cobra antes que a cabeça se separasse do corpo que se enroscava na menina. A menina imóvel e com as pernas juntas, como uma pequena cobra.

A cobra de nove metros e cento e vinte quilos sobre a estrada. A menina solta se afastando sobre a estrada. A cobra e sua cabeça. O jovem herói com a sua enxada suja. A estrada com a cobra e a cabeça e a menina e o jovem herói com sua enxada suja. A estrada e todos eles. A mata espessa sem nada hoje que não a sua imensa camuflagem.

O jovem herói coçando a cabeça olhando a cabeça da cobra sobre a estrada. A enxada do jovem suja de terra e de sangue macerados. O asfalto apenas riscado pela enxada do jovem herói. A menina olhando a barriga da cobra.

A cobra prenhe jazendo sobre a estrada. A cobra e seus cinqüenta filhotes inertes sobre a estrada. A menina sobre a estrada olhando a cabeça da cobra. Os olhos opacos da cobra olhando a garota que continua a estrada.

A menina seguindo pela barriga de cobra da estrada longa.

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