As pedras foram arrancadas do chão

De ANDRÉ DE LEONES.

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1.

Ela descalçou as sandálias e começou a acariciar o pé direito com o pé esquerdo e abriu um sorriso para o garçom, velho conhecido. Ele se aproximou e perguntou se estava tudo bem.

Meio cansada, ela respondeu.

Alguém o chamou e ele não pôde, como de hábito, sentar-se e papear um pouco. Ela disse que não precisava de nada.

Meia-noite e o centro da cidade ainda muito movimentado, o calçadão cheio de famílias com sacolas, as lojas ainda abertas.

Ela pegou o celular na bolsa e checou as chamadas pela enésima vez. Gostava quando lia no visor “chamada não atendida” ou “mensagem recebida”, o tempo todo rezando por uma surpresa.

Nenhuma surpresa, o coração cheio feito um aterro.

Guardou o celular depois de decidir, pela sexta vez em meia hora, não ligar. Ele não apareceu, nem ligou. Terminar a bebida, não ligar, ir embora.

Nas mesas próximas, cinco adolescentes barulhentos, dois jovens casais, um velho sozinho, duas mulheres hipermaquiadas bebendo cerveja, as bordas das tulipas grudentas de sal e limão. Os cinco adolescentes conversavam e riam bem alto.

Ela pensou que, mais uma vez, não teria tempo para assistir ao coral no Palácio Avenida. Contentar-se com os músicos espalhados pelas estações-tubos quando a caminho do hospital. Trabalhar no Natal, folgar no reveillon. Continuou acariciando um pé com o outro, um suspiro frouxo, o pensamento vagando pelas resoluções de ano-novo que, sabia, não sobreviveriam à primeira quinzena de janeiro: dieta, cursos, livros comprados e não lidos, a especialização sempre adiada. Pegou novamente o celular, nada, voltou a guardá-lo.

Nenhuma surpresa.

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2.

Animado, contou quantos eram: Dezesseis comigo.

Gostava quando assim. Somos tantos, e só aumentamos. No grupo, viu veteranos e novatos. As cores roxa e negra em todos eles, nas camisetas e calças e piercings. Os cabelos arrepiados, como se saltassem em direção ao céu. Velhos amigos e recém-conhecidos. Nos bolsos, correntes, estiletes, canivetes, facas, socos ingleses.

No calçadão, alguém apontou na direção da lanchonete e disse: Skinheads.

Todos olharam ao mesmo tempo. Cinco moleques, dois com as cabeças raspadas. Mais não era preciso.

Parados na esquina, todos se abaixaram e arrancaram pedras do chão. Nenhum policial à vista. Atacar e então fugir. Começaram a correr ao mesmo tempo, gritando e atirando pedras. Mesas e cadeiras viradas, pessoas correndo para todos os lados. Sacaram as armas dos bolsos.

Ele corria com um canivete na mão esquerda, a lâmina para trás. Viu a mulher, desesperada, levantar-se e, descalça, começar a correr. Nenhuma dificuldade para alcançá-la.

Enquanto a esfaqueava, não via seu rosto coberto pelos cabelos e pelos gritos.

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