Criptograma do dia vivo

De DANIELA DOS SANTOS.

É um real. A coca é dois. O guaraná também. Podia até fazer por menos. O guaraná por um e setenta e cinco, mas todo mundo faz por dois e ia ser muito difícil dar troco. E num terminal de ônibus, todo mundo reclama por todos os centavos. Vê lá se eu consigo andar de ônibus com vinte centavos a menos e o escambal.

Goiânia. O calor é o diabo! Água mineral geladinha. Já tinha ouvido falar que a água mineral não era mineral nem nada, que era só uma água qualquer mesmo, às vezes até de torneira; até que em Brasília se vendia engarrafada água de piscina. E devia ser mesmo. Nem tem selo do Inmetro nem nada.

Tem coca? Tem. Geladinha. Geladinha? É. No ponto. Me vê aí. Dois reais. Um de nota, um de moeda. Tissss. Sempre dá a impressão de estar sendo enganada isso de uma nota e uma moeda valerem o mesmo dinheiro. Tinha medo se receber uma moeda de cinco reais e nem perceber, dar o troco em três moedas de um.

Um calor do diabo e esse tanto de gente que não sossega. Tem gente na rua o tempo todo. Ninguém está tão satisfeito assim de estar onde está. Gente demais andando. Andando geralmente sozinhas. Tem as mães com os filhos. Tem as turminhas de jovenzinhos indovindo da escola. Tem os casaizinhos adolescentes que andam de mãos dadas, usando uniforme de escola, as meninas com um fichário grande recostado ao corpo, espremendo o peito recém nascido. Será que foram mesmo pra escola? Será que a mãe dela sabe?

Ela mesma não sabia.

Tem cigarro, minha amiga? Tenho não. Não tem mesmo. Parou de fumar faz quinze anos. Sabe onde tem, irmã? Uns quarenta anos, hálito de esgoto, salto de plataforma. No celular, ali. Ali na capinha de celular? Não, amiga, no cartão de celular ali. Viu? Ah, vi, sim. Brigada.

Nesse momento, sua filha Daiane talvez estivesse dando a mão àquele Wellington. Talvez já realmente o tivesse esquecido, como declarara novelisticamente, enquanto ajudava a lavar a louça do almoço de domingo. Mas ele certamente não esquecera. Viu mensagens no celular dela. Vamos nos encontrar na rua de baixo para nos amarmos. Ela tem quatorze anos. Não devia ficar se amando em qualquer lugar da rua de baixo. Pelo menos. Falou pra ela. Bosta, mãe. Eu vou fazer o quê? Posso não atender quando ele liga, mas como eu faço pra não ler as mensagens dele?

Ela jurou que não foi. Jura que não foi. Juro que não fui, mãe. Juro que não vou nunca! Não sou doida. Não quero estragar minha vida. Mas, mesmo assim, colocou uma camisinha dentro do fichário e outra dentro da meinha azul onde ela guarda o celular. Não queria que ela estragasse a vida. Já não estava satisfeita. Ninguém plenamente satisfeito onde está e coisa e tal.

Moça, troca vinte pra mim? Uma mocinha de uns dezessete, com roupa de shopping. Troco não, filha. Nem vai comprar nada e ainda vai acabar com o meu troco! É doida!

Nunca nem ela mesma plenamente satisfeita onde estava. Talvez estivesse melhor mesmo quando estava na Feira Hippie. Podia levar a Daiane sempre. Ficava vigiando. Mas aquele tanto de gente andando passando. Também era perigoso.

Uma água, por favor. Um rapazinho um tanto gordinho, obviamente sofrendo com o calor do diabo e esse tanto de gente passando. Um celular da mão pra orelha e uma cara de quem criança tentou afogar seu cachorro no tanque e não conseguiu nem tentar. Pega a água. É um real. E a água vai esquentando na frente do rosto redondinho que não consegue acreditar. Não aquele que não consegue acreditar que Deus existe e o ama. Não consegue acreditar no que ouve. Também não como não consegue acreditar que ouve Cezar Menotti lavando piscina no carnaval. Não consegue acreditar no que está acontecendo. Está acontecendo. Está escrito isso no rosto quando desliga o telefone estupefato.

Notícia boa? Demais.

Estupefato de calor do diabo, aquele tanto de gente passando, ninguém plenamente satisfeito e ele mais satisfeito do que já tinha imaginado que poderia estar. E ninguém realmente perto.

Posso te dar um abraço? Pode. Antes de pensar tinha respondido e estendido os braços. Quando ela recebeu a notícia de que seu financiamento pra compra da combi tinha sido aprovado, ela abraçou a gerente do banco. Hoje a combi ainda deve estar encalhada, enferrujando na polícia rodoviária, mas tinha sido muito útil, quando ia de Jaraguá pra feira. Tinha sido um de seus tempos mais prósperos. Mas água também é bom. Vende mais, dá menos trabalho. Realmente bem melhor do que na Feira Hippie.

Me dá mais uma? Água? É.

Comemoração. Ou seria agradecimento? Vinte e oito centavos. É o que ela ganha em cada uma. Água. Um abraço por vinte e oito centavos. Sabia que tinha valido mais o abraço na gerente do banco.

Vinte e oito centavos. Nada. O abraço foi grátis. O Wellignton vai se mudar pra Rio Verde. Ser tratorista, parece. Notícia boa demais. Mas, mesmo assim, a camisinha continua na meinha azul onde a Daiane guarda o celular. Gente demais passando. Ninguém plenamente satisfeito.

Enquanto isso, Jean nem sabia que estava prestes a sair do útero, a um pé de ganhar corpo, mesmo que de papel.

.


%d blogueiros gostam disto: