Mariachis’ killer

De EUGENIA ZERBINI.

No vale nada la vida
la vida no vale nada
comienza siempre llorando
y así llorando se acaba

(Camino de Guanajuato, José Alfredo Jiménez)

Eu não gosto de cores. Prefiro o mundo escuro, castanho, ocre, cinza-azulado, da tela dos computadores. Não obrigatoriamente o meu; na maior parte das vezes, formo minha tropa de laneros e vamos em bando jogar en las houses.

– Ramiro, Ramiro…

Não gosto de minha mãe, la vieja.

– É Ricky, Ricky, meu nome é Ricky, quantas mil vezes tenho que repetir. Ricky, Ricky, Ricky, por la eternidad (já vi isso em um filme. E gostei tanto que saí do cinema e mandei minha irmã descolorir meu cabelo e deixá-lo bem claro. O máximo que ela conseguiu foi um amarelinho. Acho que foi má vontade dela. Mas eu gostei, dessa cor eu gostei, porque foi uma cor que apagou minha cor original e, como já contei, a mi no me gustán las colores).

Ramiro, hijo, oiga, tengo que salir, e se benze, curvando os joelhos diante da imagem negra da Virgem de Guadalupe, pendente ao lado da porta.

– Vai, vai pela sombra, vai para o inferno… Não suporto seu cheiro de alho, cravo e coentro, parece que sempre diante de uma panela, apurando um mole.

En México, hay una receta de mole en cada cocina, é o limite máximo de sua sabedoria. Não gosto do cheiro dela, mas gosto de mole, seja de sua cozinha ou de qualquer outra, desde que bem feito, com cacau amargo e marrom, sin otra color.

A mí me encanta solamente el amarillito de mi pelo. É um alívio quando ela sai para trabalhar, como florista em Xochimilco, la vieja. Sustenta a casa desde sempre com o dinheiro que ganha vendendo maçozinhos de flores fedorentas em Xochimilco, pesadelo de cores falsas, armado só para trapacear turistas. Engaño colorido. Pensam que tudo aquilo é verdade, mas não é, isso eu juro, nada daquilo es verdad. Acredito mesmo que as telas do meu ordenador são mais verdadeiras do que todos aqueles barquinhos juntos, deslizando naqueles canais que acreditam ter sido cavados, há carradas de tempo, pelos maias. Meus antepassados? Só se forem seus. Aposto que nem existiram: foram inventados pelos professores de história, para terem o que ensinar. He, he,he.

Ahora, mais do que as cores e do perfume das florezinhas de la vieja, o que realmente me revira o estômago são aqueles maricas, poltrões, putones, ai-ai-ai, os mariachis, plantados com suas fardas ridículas sob a copa de seus sombreros infames.

Entra só de faca, que ela faz você mais leve. Depois pode trocar de arma, basta escolher, de 1 a 5. Espaço, espaço você pula, pula outra vez. Esse é o game. Além de meu cabelo amarelo – a falsa cor de meu cabelo –, eu acho que também gosto do vermelho, vermelho sangue, o vermelho ferida, sinal de morte, alvo atingido.

Nosotros jogamos combinado, nem todos terroristas, nem todos pistoleiros, nem todos franco-atiradores. Para mim, pouco importa meu lado, o importante é que durante o jogo imagino que meus alvos são os mariachis. Maricones, mariachis, dá tudo no mesmo. Ai-ai-ai, é o vermelho da faísca, do fogo, da bala, da faca, que adentra nas carnes sem resistência, pegas assim de surpresa, para depois serem deixadas para trás. Bonecos inertes. Inúteis. Como as letras idiotas das músicas estúpidas que cantam.

Vai de “w” e sai de frente, na primeira oportunidade, descola um colete e um capacete, aperta control e abaixa, manda ver, shift, você vai mais devagar, porém sem fazer barulho, como uma sombra, sem que ninguém perceba.

Minha irmã – aquela que mudou meu cabelo – foi para L.A. (¡Los Angeles, eso!) e trabalha como cabeleireira. Meio-vadia, meio-cabeleireira, meio-irmã, já que é a primeira filha de minha mãe, com um outro homem, mecânico, em uma época que moravam em Tenochtitlán. Foi lá que la vieja, depois de muitos anos de casamento, conheceu o homem por quem se encantou e que diz ser meu pai. Começou em um dia 22 de novembro, dia de Santa Cecília, padroeira da música e, porsupuesto, de los mariachis. Fugiram para os arredores da capital e arrumaram emprego em Xochimilco. Tudo foi muito bom por uns poucos anos, até o dia que ele encontrou coisa melhor, coisa mais nova. Ela se acabou, la vieja. Não que propriamente seja velha (ainda que para todos os filhos as mães nasçam velhas), mas parece velha. Como os restos dos ramalhetes de flores que ela não vende e traz de volta para casa tarde da noite. Sem viço. A flor que ninguém quis mais colher.

Ele era um mariachi, ela me segredou entre lágrimas há um tempo (na época em que ainda bebia e chorava olhando fixo para o copo). O mais belo, garboso e afinado dos mariachis. Ai-ai-ai.

“S”, você volta para trás. S, repete. Tem vezes que você precisa voltar para trás. ¿Que más les puedo decir? Alcança o mouse, pressiona o botão esquerdo e atira. Botão esquerdo pressionado, atira.

…………………….

Eugenia Zerbini, autora do romance As netas da Ema (Editora Record, 2005), vencedor do Prêmio SESC 2004.

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