O crocodilo

De NEREU AFONSO DA SILVA.

eu – tal qual o crocodilo na areia, que pousa a carcaça como se pousasse a eternidade; que lá fica, tapete pré-histórico, e deixa de si uma paisagem incompleta: a de pedra entediada; aquele que compreende o jogo da monotonia, o gosto pelo nada fazer de bicho indolente abordando o ínfimo, aproveitando o insignificante sono de olho aberto, sem medo, sem fome [incômodos dos mais respeitáveis], mantendo-se tapete durante o longo variar das horas, alheio a novidades, indiferente ao «vai, faz alguma coisa, ser inútil»; pupilas de agulha e batalhão de dentes de agulha; bicho que espera, respira, medita, digere, repousa, ou, se calhar, nem uma coisa nem outra [Cioran cita as palavras de Wordsworth a Coleridge: Eternal activity without action]; animal sempre, jamais subanimal: eu – tal qual o crocodilo, posso manter-me tapete, o mais vivo e consciente dos tapetes, em resplandecente e implacável inação, ou, se quiser, num pulo, arrancar-te legitimamente a cabeça.

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