tábua 29

De BRUNO DORIGATTI.

vou comer beijos, me alimentar todinho de você, do seu calor, da sua voz rouca, do seu sorriso infinito, dos seus olhares sinceros, profundos e calmos. você tem me ensinado a ter calma, a olhar as coisas com menos ferocidade, mais desapego e muita complacência. (……..) encontrei o solitude trezontonti, meio desolado, perdeu mãe e irmã, naquele meteoro que devastou todo o oeste do paraná. sobrou prele cuidar da vó, do pai, dos sobrinhos sozim. ofereci ajuda, o solitudi disse que pode ser, o que estiver ao meu alcance é sempre benvindo. me despedi e disse que ia pensar no que estivesse nesse alcance aê. (……..)) a pé, de chinelo, pulando as poças de água da chuva com lama com fuligem com plástico resto de comida chepa de feira cachorro gato pombo rato morto, lembrei daquele dia, quando de repente tudo deixou de ser imagem idéia tenência pra cair na vida no toque sutil no abraço. não lembro dessa passagem. ou melhor, poderia fazer uma forcinha pra lembrar, é que, assim, confundindo numa nebulosa quando foi-se dali praqui tudo se perde e tudo se fica, ali aqui, no breu. (……..)) e então, encarar agora os julgamentos dos que não vivem [mas julgam], ao mesmo tempo que é mais fácil, pelo desapego, fica mais e mais peligroso, porque a vontade é de dizer tuuudo, mas… foi-se. (……..)) o solitude mudou de nome, pensou assim: vou ter que ser quem nunca fui, fazer o que nunca quis nem pedi, sem opção. vou mudar de nome. foi coisa poca, na real. solitúdine. sutil, como ele sempre foi. dexcolou um bixcate ali na comlurb. faz café pão com manteiga e bolo pros lixeiros, que vão e vêm todo dia pro depósito, botar uniforme, pegar vassoura e aquele tambor laranja pra sair porraê minizando a porcaria que fazemos. diz que a vó melhorou, o pai entrou em depressão e os sobrinhos morreram atropelados. coisas da vida, como diria o kurt vonnegut. ele ponderou [sabia fazer isso, o rapaz], inverteu-se a lógica, o próximo sou eu, vovó enterra a família inteira. encontrei com ele por acaso, tomei um cafezim que ele faz [não é dos piores], ele me deixou a par dos pensamentos. ofereci de novo ajuda, ele disse, no que estiver no alcance. (……..)) vim juntando tripas e chutando latas. Não havia nada ao meu alcance, pra ajudar o solitúdine. bem, deixei pra lá. (……..)) isso assim era ruim, porém, inabalável eu andava. seu sorriso infinito ainda me guia, eu perco um pouco o contexto, fecho-me em mim mesmo, assim com toda essa redundância e então lá está você. você me olha com um cuidado, transparece carinho e sinceridade, esbanja paciência e liberdade. suas amigas me encontraram dia desses pelas ruas da cidade, era noite e neblina tomava conta. cheias de sorrisos e perguntas sobre você, disse que estava em, que voltava logo, umas viagens de trabalho, uns planos pra tirar do papel. bebemos algumas cachaças, partimos pruma sinuca, perdi todas. profissionais, as suas amigas. dei carona para elas e ali, na minha bicicleta de quatro lugares, pedalando pelo centro, vendo o dia nascer, a gente foi rindo, lembrando das suas histórias, dos seus tropeços, dos seus abraços apertados, dos beijos sublimes induzidos e não completados [elas disseram que também já haviam lhe beijado] paramos pra ver o sol subir por detrás do pão de açucar, ali no finzim da praia do flamengo. (……..)) no meio da gargalhada de uma de suas amigas, eu ouço “pessanha?” solitúdine ainda não havia partido, mudou de ponto e agora vendia, além do café [mas sem pão com manteiga e bolo], água de coco e água mineral. faaaaaala solitúdine, como é que vai essa forza? tô no lucro, veja você, papai foi-se de depressão, e foi feliz. sobrou eu e vovó, vamos levando essa vida. e agora parece que entendi alguma coisa. algo sobre desapego. então como aprendi dessa forma, to prontim, mas só depox da vovó. e ela sorri pra mim, fala bem pouco, movimentos contidos, pausados, fica ela ouvindo a seresta dela, com o carpeto, o gato persa, no travesseiro em seu colo, cadeira de balanço perto da janela que dá pra floresta. (……..)) eu podia fazer o que estava ao meu alcance. pensei na vovó, no gato persa. deixei pra lá, o solitúdine estava bem é demais. nos despedimos [antes eu apresentei as meninas, “são amigas da …”], comprei água de coco para todos nós e fomos caminhando em direçao do mar. na areia, deitamos numa daquelas cangas enormes, quadradonas, uns desenhos abstratos irados, tipo toalha de piquenique. nas nuvens, ficamos inventando desenhos. bichos plantas, cidades inteiras, campos de futebol, bicicletas, florestas, croquis. rostos conhecidos e nunca vistos. e então esbarrei-me com você. não sei se elas viram. mas devem ter percebido pelo meu sorriso tolo pro nada. estava tudo tudinho ali. o seu calor, a sua voz rouca, o seu sorriso infinito, os seus olhares sinceros, profundos e calmos. você voltaria dali a três. fechei os olhos e dormi ao som de suas amigas. (……..))

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Bruno Dorigatti, catarinense de Blumenau, reside no Rio de Janeiro. Foi um dos premiados no concurso de contos Josué Guimarães da 12ª Jornada Literária de Passo Fundo, em 2007. É repórter do Portal Literal. Outras de suas “tábuas” foram publicadas na coletânea Caos Portátil: poesía contemporánea del Brasil, pela editora mexicana Ediciones El Billar de Lucrecia.

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