O föhn

De PRISCA AGUSTONI.

Eles costumam passear dias antes da sua chegada porque com Ela pairando no céu, vêem-se obrigados a cuidar da sobrevivência. Levam uma vida tranqüila, com parentes que os visitam, um filho que desembrulha um bolo de aniversário, uma neta que não os compreende, uma nora mal humorada. Todos trazem flores roxas que, nesse país comportado, é um bom presságio e acrescenta alegria às noites intermináveis vigiadas pelas sombras. A enfermeira, pelo menos, é gentil, apesar do sotaque metálico: é estrangeira, residente com permissão, pois é casada com alguém daqui. Ja, das ist klar, sie spricht ein ganz gut Deutsch, weil sie seit 6 Jahre hier wonht, aber wir sehen, dass sie etwas ausländer hat, etwas dass ihren Augen sich verstecken versuchen.

De repente, a notícia se espalha. Ela está vindo. Dia sim dia não, chegará, e deixará as cortinas em pânico. O senhor Eberle é quem mais se perturba ao receber a notícia: levanta olhos e mãos ao céu, com uma força que chega da infância transcorrida na fazenda do pai. A força que move seu desespero é o que de melhor lhe restou da juventude. No entanto, o gesto de amarrar a cabeça com panos vermelhos mergulhou-o na contemplação e no silêncio. Pronuncia poucas palavras, na véspera da sua chegada, como se fossem as últimas de um Cristo em cruz: oh mein gott, oh mein gott.

Os corredores da mansão de persianas verdes conhecem os segredos da família Castmann, cuja filha, Irène, hospedada na casa, conserva-os a sete chaves numa fala seca e hostil que afasta a curiosidade dos novos internos. Se alguém esboça interesse pela sua vida, ela subitamente profere o refrão mágico (celà ne vous regarde pas, madame) e muda-se de mesa. Contudo, os mais pacientes escutam-na à noite, quando protegida pelas paredes do seu quarto lê cartas à mãe, morta. Dizem que na infância morava na vila de Collonge-Bellrive, enquanto o pai, pianista, fugia da perseguição alemã.

Quando a notícia se espalha através das persianas da mansão, a senhora Castmann não deixa mais seus aposentos, preparando-se para a tragédia iminente. Arruma seu melhor vestido, permite-se duas gotas de água de colônia e senta-se à janela, à espera. Os corredores da mansão alimentam, nessas horas, um estranho presságio, como se um alarme ecoasse pelas paredes das montanhas e resvalasse até o alicerce da casa.

Às vezes, ouve-se o grito da senhora Paci, que desde o quarto da sua maturidade encara o corpo imóvel da filha na cama, desaparecida aos trinta anos, numa manhã de vento. O grito, que ela engoliu naquele dia, transforma-se numa linguagem de olhares, como se estivesse em terra estranha, desafiada a entender os códigos escondidos atrás das palavras. Ela grita, quinze anos após o suicidio da filha, para dar voz à angústia da outra, que preferiu calar-se.

O vento föhn ganha vitalidade e, aos poucos, do lado de fora da mansão, o céu expõe, sem pudor, a nudez da paisagem, e a terra, violada de sinceridade, treme. Nesses momentos, é possível espreitar detrás das persianas verdes da mansão o rosto levemente inclinado da senhora Castmann, a olhar para algum ponto gelado no horizonte. Ela esboça um sorriso que, como nos contos de fada, elimina as rugas e devolve ao rosto o frescor exilado no fundo da infância.

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