De linhas e omoplatas

De DHEYNE DE SOUZA.
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Ela risca o seu braço entalhado nas linhas dos livros, das árvores, dos ônibus, da estrada. Ela risca e segue o traço das suas veias, sua imagem coagulada na memória. Seus poços desaguando em seus poros. Suas gotas de mar chovendo em seus seios. Espirala seus dedos e aponta ali uma cratera de sonhos. E segue.

No caminho tortuoso das suas costas ela encontra casas impenetráveis, acaricia as soleiras, espia uma ou outra janela aberta, cortinas ventando, telhados molhados. Penetra um pouco mais, os móveis gemem estrofes brancas, colagens trêmulas, pássaros presos, paredes. As unhas infiltram seu dorso, escapa pelos retratos, arranha o tempo. Prossegue mais.

Descobre frestas lânguidas, titubeando naquele escuro o mistério alvo. Risca à língua os labirintos, trança na lâmina os ciprestes, e se afasta a observar o desenho do seu corpo. E o persegue.

As gotículas diminuem na medida em que se distancia, as pousadas menores na sua respiração cortinada, os vasos liliputianos na mesa. Seu corpo inteiro mapa.

Seu corpo inteiro segue, deita uma outra cidade à altura das suas omoplatas.

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