Geovana e alguns humanos mofos

De LEANDRO RESENDE.

 

1.
O mofo não estava só nas paredes. Descia e escorria pelos corpos caídos, escorados, quietos. Pernas, braços, rostos. Humano mofo. Parado ali há tempos, mofados em seus crimes. No teto, uma escura mancha circular, como uma pedra jogada no lago. Ondas imóveis.

Antônio olha esse céu fixo. Fuma um Belmont lentamente, o último de poucos. Quer até o último mastigar tóxico daquele cigarro, daquela fumaça. Sensação particular de existir por completo – mesmo contra as possibilidades. Ao seu lado, naquele cubo de três por cinco com corpulentas barras de ferro na vitrine, outros 12 antonios que fediam suor, cigarro, urina e merda. E mofo. Todos ali deitados. Dois jogam dama, calados. Três olham o teto, calados. Um fuma, calado. Os outros sete, calados, nada fazem como os outros que jogam dama, olham o teto ou fuma. Ficam nessa dança descrente, revezam o nada.

Revezam o espaço de esticar a perna. Cócoras. Bruços. Em pé. Sentado. Uma centena de micro-movimentos musculares faciais, nanotecnologia do tédio, onde até mesmo o estralar do dedão, um momento particular e intransferível, se torna um ato coletivo, uma agenda.

“Olha, eu concordo com o Jerê. O cara entregou a irmandade, deve ser punido. Não é porque é ator, novelinha, TV Globo que vamos afinar pro bosta. Aqui é cadeia, temos regras. Ou damos o exemplo pra toda nossa gente ou pedimos autógrafo igual um bando de galinhas e putinhas carentes e desmioladas”, sentencia Digo, olhando para os companheiros de cela.

A conversa não tem pressa. Mesmo os movimentos para buscar as palavras que saem de um e vai aos outros é lento. Não é reflexão e não são filósofos.

Não estão em silêncio a procurar inéditas explicações devastadoras ou revolucionárias. Só estão aproveitando o assunto, degustando, digerindo e descomendo palavras. Assuntos são necessários.

Não têm pressa. Não vão a lugar algum, ninguém os está esperando. São a antítese do mundo moderno, onde urge toda fé de compromisso, reunião, encontro ou almoço de negócio, visita técnica, viagens.

Para onde o tempo corre numa cela de três metros por cinco? Ele bate na parede e volta. Bate, cai, levanta, volta. Luta. Perde. O tempo está engarrafado. Logo encosta num canto e fica quieto também.

2.
“O carcereiro disse que o juiz negou o habeas corpus do branquelo. Pelo jeito ele vai descer pra cá, vão decretar ele”, disse Ramos.

J.P.F., o líder do presídio, comenta, com cara de raiva: “Bom. Bom isso. Já recebi umas ligações ainda hoje dizendo que nossas três firmas na Zona Leste caíram depois que esse ator de merda foi preso. Medroso. Deve ter tremido, entregou tudo. E, sabem onde ele comprava o pó?”

“Lá? Zona Leste?”, quer saber Tiziu.

“É.”

“Filho da puta”, repetiram dois ou três encubados.

“Pois é. Faz assim, Jerê. Canta o pessoal aí da Casa, diz que tem um prêmio de R$ 2 mil, uma Beretinha zerada e um tijolo de maconha se, caso o artista desembarcar aqui e eles colocarem ele aqui no nosso quarto.”

3.
O advogado diz: “Olha, vão te descer pro presídio, está vencendo sua provisória e o delegado gostou do ibope do caso. Bem mais do que a propina que oferecemos. O puto de merda nunca apareceu tanto e, o foda é isso, você deu sopa demais pro azar. Tem elementos para te manter preso até o julgamento.”

4.
“Seis. Saiu.”

“Vai. Cinco. Saiu você.”

“Deu nove.”

“Só vocês dois, quem ganhar fica com o branquelo.”

“Três.”

“Deu quatro. Ganhei. Ganhei. O branquelo é meu”, comemora Willian, jogando os palitos pra cima e rindo na cara de todo mundo…

5.
Tira novas fotos. De frente, de lado. Exame de corpo delito. Nu. Responde o questionário, como idade de 40 anos, pele clara, profissão ator… Coloca o uniforme azul. Acorrentado pelos pés, caminha lento pelo corredor. Carrega uma mochila com comida, toalha e escova de dente.

Entra na cela. Círculo no teto, mofo. Lotação. Fede urina. Até as roupas que passavam de reeducando para reeducando já fediam urina.

Tenta imaginar que não é verdade, que é uma cena. Uma novela.

“Corta. Gravando. Silêncio no set! Câmera 1. Corta, close, deu. Cena 2, agora…”

Os caras estacionados ali, banguelas, barba mal-feita, olhar troncho, cansado. Suados. São tão feios que parecem armados, bandidos, assalto. O olhar raivoso como um homicídio culposo, ameaça. Agressivo, integridade física sob a guarda do diabo. O inferno.

Cada olhar é um murro em silêncio.

6.
“Ô branquelo. Seu nome agora é Geovana, certo?”

O ator balança a cabeça concordando, sem entender, imaginando uma brincadeira, uma recepção talvez amistosa. Todo mundo conhece seu rosto, vive ali na sala, na cela. Entrou ali mil vezes, por aquela TV velha no canto. Estavam brincando, talvez. Um jeito de puxar assunto, fazer amizade, talvez. Cordialidade de bandido, talvez.

“Não entendi, mas deixa pra lá”, pensa em silêncio.

“Faz assim”, diz Willian, “pega esse barbeador e depila tudo, deixa só o da cabeça. Pernas, braços, debaixo do braço, bunda…”

“Não, não. Eu… não”, tenta interromper.

“Idiota. Cala a boca cara, você agora é mulher do irmão aí. E mulher fica calada, só escuta. Só obedece.”

A reação foi instantânea. Meio que concordando, começa a depilar a perna.

J.P.F. se aproxima e dá-lhe dois tapas no rosto.

“Olha, cara. Ninguém tem direito de levantar a voz para mim. Negar meu pedido então, impossível. Muitos saíram daqui para o IML. Aqui todos têm a mesma profissão, inclusive você: somos presos.”

“Sei. Tudo bem.”

Abaixou a cabeça, com a mão sobre o nariz, e se encolheu no canto. Era bem na quina da parede. Ora se escorava de frente para um lado ora para o outro.

7.
“Ou, ou. Ué, num vai depilar não? Quer outra porrada?”

Continua a raspar as pernas, enquanto uma lágrima desce de seu rosto. Barriga, costas, saco, coxas. Logo soluçava, vez ou outra, alto, com o choro que não mais era contido. Depois lentamente raspou o braço e o peito. Ficou mais branco ainda. Uma pele limpa e bem cuidada, que ainda não se sentia cansada com o bolor de tudo ao seu redor. Passava a mão, a todo o momento, na face, para retirar as lagrimas.

“Isso, agora descansa. Seu marido é o Willian, qualquer coisa, pede pra ele. Você só pode dirigir a palavra a ele, sempre de cabeça baixa, voz baixa. Você entendeu?”

“Sim.”

“Porra. Não conversa comigo. Respeita seu marido.”

Horas depois, num dos dois beliches da cela, Willian forra o colchão e usa outro cobertor como cortina para isolar o interior da cama do resto do ambiente. O olhar do ator denuncia seu pavor, numa intensa e real interpretação do medo. O medo real. O medo maior que existe no interior de cada pessoa sobe até sua pele, quase salta. Sente uma falta de ar quando respira mais fundo.

8.
“Geovana. Geovana. Vem deitar, vem dormir.”

Ele levantou, como um condenado, e foi desviando das pernas no chão, até chegar ao beliche.

“Deita aí e tira a roupa.”

Um frio subiu da ponta dos pés à sua nuca. Sentiu-se o menor, o pior dos indivíduos, um óbito que se despia. Suas mãos tremiam e suavam. Novas lágrimas.

Tira a camisa, a bermuda e fica de cueca. Minutos antes, pela sua inércia, Willian já havia dado um tapa em sua cara: “Anda logo, porra!”

Ao resistir em tirar a cueca, leva dois socos no rosto.

Tira a cueca.

Os dois estão nus. Olha nos fundo dos olhos de Willian e entende o que seu ‘marido’ quer.

Vira-se de costas, mas Willian o puxa pelos cabelos, o vira a força. Quer oral, primeiro. Faz, engolindo a saliva a força, fazendo vômitos. Treme, como se estivesse doente, febril. Minutos depois, Willian o empurra para o lado e o vira de costas. Sem muita cerimônia ou romantismo, o penetra.

O silêncio na cela é quase absoluto, como se estivessem só os dois e uma TV ligada com o som no volume mínimo. Ouviam-se apenas os gemidos de prazer de um e de dor, do outro. Durante a noite, o acordou mais uma vez, para nova sessão de sexo.

O dia amanhece. Willian o pega pelos cabelos e diz: “Geovana, volta para o seu lugar, senta lá e não conversa nem olha pra ninguém. Se não me obedecer, eu te mato aqui mesmo. Se contar para alguém fora daqui, morre você e sua família. Ok? Quando anoitecer, volta para cá.”

Veste-se e caminha como se estivesse morto, como se fosse o pior de todos, com o peso de ter cometido um crime capital, um herege, para ser condenado a tal pena.

Não entende, já não pensa para tentar entender o que está acontecendo.

Tudo já havia acontecido.

Cada passo lhe custa parte da alma. Cada olhar, cada pensamento lhe tira o gosto de viver. As relações sexuais se repetiram pelos dias seguintes.

9.
No meio da tarde do quinto dia, um carcereiro apareceu diante da cela. Apontou o dedo para ele e pediu que levantasse, pegasse suas coisas, estava solto. O juiz o liberara. Nem alegria sabia mais sentir, mas Willian demonstrou uma chateação em seu olhar. Já estava gostando de Geovana. Nunca mais se encontraram.

10.
Dez meses depois, ao trocar de canal, os presos deram de cara com a propaganda de uma novela que estrearia em breve. Entre os principais atores, lá estava ele, um olhar limpo e seguro, cabelos curtos e um semblante mais jovial, com um terno cinza e gravata vinho.

Com um sorriso sem graça, Willian não conseguiu esconder que sentiu saudades de Geovana.

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