No meio do caminho

De LÚCIA BETTENCOURT.

– Vamos?

– Só mais um pouquinho… Desabotoa essa blusa… Vai, deixa eu ver esse peitinho… Sabe que eu sou louco por esse seu peitinho? Parece um brownie…

– Um quê?

– Aquele bolo de chocolate. Humm, deixa eu ver o outro…

– Tá calor aqui. Olha, o vidro está todo embaçado…

– Eu ligo o ar. Tá no máximo, já vai esfriar. Cadê meu brownie?

– Acho melhor a gente ir. Se não não vai sobrar nada prá gente fazer no motel…

– Sobra. E se não sobrar a gente faz tudo de novo. Que calcinha você está usando?

– Quem te disse que eu estou de calcinha?

– Deixa eu ver. Tá de calcinha sim. O que é isso aqui?

– Não é calcinha nada. É uma coisa que eu comprei. A gente liga assim, ó.

– Você me deixa louco. Olha só o que eu tenho aqui para você.

– Tudo isso? Nossa, como ele cresceu. Mas aqui não quero não. Ah. Aaah.

– Que foi?

– É esse negócio… aah…AAH.

– Tá me dispensando?

– Não, seu bobinho. Tou só me aquecendo pra você! Vamos?

– Pra onde?

– Pro motel. Você disse que hoje a gente ia pro motel.

– Só mais um pouquinho. Ó, vou chegar o banco aqui prá trás e você vem para o meu colo assim.

– Não vou nada, ainda estou com uma mancha roxa enorme por causa desse volante.

– Então deita esse banco que eu vou prá cima de você. Pô, que bocejo é esse? Você não tem tesão por mim, não?

– Eu sou louca por você, mas é que você prometeu que a gente ia transar numa cama redonda, que treme, e que tem espelho no teto…

– Se você falasse menos a gente já tinha terminado. Olha só o meu estado! Como é que eu vou dirigir assim?

– Que tal se eu der um beijinho?

– Só um beijinho?

– Uma lambidinha…

– Mete todo na tua boca, assim, ó. Ele é todo teu.

– Ai! Assim eu engasgo. Você é muito violento.

– Você nunca me chupou até o final.

–É que eu acho meio nojento esse negócio de você gozar na minha boca…

– Tem nojo de mim?

– De você, não. É que esse negócio parece que tem cola. Gruda. Tenho medo de vomitar. E depois, você está mais calmo, olha só… Um passarinho calminho, nem parece um passarinho, parece um gatinho mansinho… Vamos aproveitar e ir para o motel…

– Você fala tanto… acabo perdendo a tesão….

– Eu também estou ficando com um soninho…

– Cadê o brownie? Prá dar aqui pro gatinho? Põe a mão aqui, põe.

– Vambora?

– Vou te levar pro melhor motel do Rio, minha gata. Com cama redonda…

– Espelho no teto…

– Piscina…

– Piscina não precisa, que eu tenho nojo!

– Eles trocam a água toda…

– Prefiro hidromassagem… ah… Tô tão molinha… Tá me dando um soninho….

– Dá uma mãozinha aqui…

– Meu braço tá cansado…

– Eu ajudo… Amor? Amor? Você dormiu?…..Também tou tão cansado… Acho que você tinha razão… Era melhor ter ido para o motel… Só que eu gastei o dinheiro todo no jantar…. A gente ia comer só uma pizza…. Você resolveu pedir …o que é mesmo que você pediu?… está me dando um sono… vou fechar os olhos só um pouquinho…

* * * * * * * * * * * * * * * *

– Delegado?

– Plantão de Carnaval é foda! Só dá bebum! O que é que foi desta vez?

– Não é bebedeira não.

– Homicídio?

– Acho que não.

– Como é que você acha? Quem é que tá te pagando para achar alguma coisa? Foi roubo?

– Acho que não.

– Porra! Já disse que ninguém te paga pra achar nada. O que é que foi?

– Foi morte… na via pública…

– Atropelamento?

– Não. O casal tava dentro do carro, ligado…

– Suicídio? Pacto de morte? Chama aí o repórter, que isso dá matéria.

– Não, acho que foi acidental.

– É como eu disse. Carnaval é foda. Não dá nenhuma manchete.

– Acho que eles tavam transando e …

– Já te disse pra não achar nada.

– Mas eles estavam quase sem roupa… Ela tava com um negócio meio esquisito, parecendo um pinguim enfiado naquele lugar…

– Pinguim tá na moda!

– Ele estava com os “documento” de fora…

– Gostosinha, ela?

– Tinha uns peitos legais, mas não era grande coisa.

– E ele?

– Tá me estranhando, delegado?! Eu lá sou homem de achar outro gostosinho?

– E eu lá sou homem de perguntar isso? Quer que eu te enquadre, sua besta?

– Mas o senhor quer saber o quê?

– Se era marginal, se era casado, alguma coisa que interesse aos repórteres.

– Ficha limpa. Solteiro…

– Arquiva aí em morte acidental. E vê se aquela repórter novata se interessa pelo caso. Se for dar foto, a gente vai até o local. Mas, duvido. Plantão de Carnaval é foda. Não dá fama a ninguém.

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