Tudo que nunca foi dito

De FERNANDA LAMADRE.

Mais uma vez, saiu da casa dele com a sensação da missão descumprida. No entanto, desta feita, algo se perdeu para sempre: ele vai embora.

Sentindo o desalento cobri-la como um manto, tomou a chave do seu carro e deu a partida. Tudo o que ouvira falar sobre o peso das palavras que nunca foram ditas fazia sentido agora. Pior, já não podia dizê-las: os silêncios entre os dois já não as comportavam. Ele fez a sua escolha: partir, seguir sua amada e sua estrela. Ela, daqui, nada decidira, mais uma vez.

Recordava-se de quando se conheceram e eram muito jovens – mas não fazia nem um ano! Nesse tempo, ela envelheceu em suas dores; ele, em seus entorpecentes. Agora, no entanto, os dois estavam decididos a mudar: ela, pronta a abrir mão de sua tristeza; ele, de malas prontas. Como, então, abandonar a tristeza, se o seu amigo partia? E, mesmo aqui, ela não diz ao seu amigo tudo o que deveria ter sido dito há tempos.

Sonhou com ele muitas vezes: sonhos pueris, sonhos fortes, sonhos acordada. Pensou muitas vezes que olharia para trás e veria que ele ainda estava lá. Em seus sonhos, ele apenas esperava o momento, o melhor momento, o que nunca veio. E agora? Pegar a esperança, enfiar numa sacola e partir, ela mesma, para sua casa solitária. Tudo para não vê-lo se despedir, e poder sonhar, ainda, tão enganada como pudesse ficar, que aquele amor era seu.

Amor – termo estranho para uma mulher tão egoísta. Porque jamais deu esse amor, jamais, em nome desse sonho que teimava em assombrá-la de tempos em tempos. Na realidade, não teria se sentido mal de destruir-lhe o lar, a sanidade, fazê-lo perder o que de doce tirasse de sua amarga vida conjugal. Não se importava. Apenas não lhe deu seu amor para não perdê-lo para sempre. E foi aí que o perdeu.

Deitou-se, enfim, embalada pelo cotidiano que a faria, como das outras vezes, esquecer de sua covardia. No entanto, quando o sonho chegasse e seu coração se sobressaltasse como sempre, uma voz acabaria com o calor tépido daquele momento: ele partiu. Para sempre.

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Fernanda Lamadre nasceu em São Paulo em 1981, mas cultiva raízes em Brasília desde 1995. Perde-se cotidianamente em paixões, e se encontra graças aos amores eternos: pessoas insubstituíveis, especialmente sua filha, idéias e música. Quando a musa lhe concede uma dança, escreve nos blogs Manifesto dos Sem-Respostas e This is my only line.

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