Um dia a mais

De MARIA LUISA PENDILHE.

 

O dia amanheceu cinzento mas o calor continuava conforme as últimas semanas. O serviço de meteorologia não havia apontado para mudança alguma no tempo. O despertador tocou na hora de sempre.

Verdinha (ai, que apelido mais sem graça!), como em todas as manhãs, ao abrir os olhos fez sua oração, lembrando de todas as pessoas que amava: – todas merecem ser abençoadas, conforme sua religião indicava. Também orou por si…

Após seu momento meditativo levantou-se, foi ao banheiro. Tomou seu banho, colocou aquela blusa cor creme que combinava muito bem com sua calça preta de brim recentemente comprada no shopping que inaugurou na semana anterior.

Mais um dia na repartição.

Mais um dia igual a tantos outros.

Devia estar mais animada, pois era uma 6ª feira e o sábado prometia ser um bom dia de descanso. Podia, até, aproveitar e ir à missa de jovens às 18h. São tão joviais…

Contudo, não estava animada assim. Algo acontecia com suas emoções que a impedia de viver a expectativa (de sempre) pelo bom e sereno sábado de descanso…

De qualquer forma, seguiu adiante na 6ª feira: colocou a água do café para ferver, enquanto preparava a mesa: pão de forma light, manteiga, queijo branco e mamão, leite e açúcar.

A água não tinha fervido; Verdinha foi à janela e percebeu que o tempo se mantinha cinza e misterioso (tempo cinza transmite mesmo um clima de mistério).

Percebeu-se inquieta e tentou lembrar algo que a poderia incomodar. Procurou em seus pensamentos: na repartição vinha convivendo com as pessoas de sempre, a não ser pela presença de uma nova estagiária que era carinhosa e simpática “demais”.

A tal estagiária vivia oferecendo café, biscoito (nossa, quanta atenção! Não é nada minha! Será que essa menina não se toca?).

Será que era esse comportamento demasiadamente atencioso que perturbava sua “serenidade”?

A água fervia.

O movimento na rua começava a ficar intenso: carros, bicicletas, pessoas pra e pra cá, estudantes, mães de mãos dadas com seus filhos para atravessar a rua…

O clima cinzento continuava dentro e fora dela.

E o incômodo a tumultuava.

A estagiária nova…

Atenção demais…

Subitamente seu dia foi interrompido pelo toque do telefone: – Quem seria àquela hora? Isso são horas de alguém ligar?

– Alô! Quem? Oh, não!

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Maria Luisa Pendilhe é pedagoga e assistente social. Trabalhou em uma Escola de Artes Integradas na coordenação de grupos de crianças e adolescentes. Atualmente atua em Empresa no Programa de Qualidade de Vida no Trabalho oferecido aos empregados, desenvolvendo projetos a partir da vivência, pesquisas e entrevistas. Alguns projetos incluem a prática de dinâmicas lúdicas, nas quais se utiliza de jogos e tipos de arte: música, dramatização, plástica, construção de textos. Participou de Oficina de Criação Poética com Roseana Murray e Oficina de Criatividade e Objetividade com o Professor Gerson Jorge.

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