Você vai para Miami?

De SUSANA FUENTES.

 

A pergunta é feita como um susto, com a mão levada ao peito e certa inclinação do tronco para trás. O rosto firme no ponto de interrogação. Você ouve a pergunta, você ri, a resposta vem ritmada, a pergunta não exige resposta, mas espera o efeito de sua encenação.

Em Miami iguanas caem das árvores. Por causa do frio, o corpo não suporta baixas temperaturas. Mas lá faz frio? Às vezes. Este ano fez. Por dois dias. Em janeiro. As iguanas despencaram, sonolentas, as ruas ficaram cheias delas, tiveram que as recolher, não são de Miami, vieram do México e outras terras mais.

Você vai para Miami? A pergunta significa: qual é a sua? Ou o que você vai fazer lá? E há uma segunda intenção deixada no ar: você vai para Miami? Ou seja, a gente passa por Miami, a gente não vai para Miami. Observação astuta na voz da amiga perspicaz. Claro, o brasileiro vai à Disney e passa por lá para fazer compras. Diante disso, resta-me completar: não qual é a sua, mas… qual é a sua Miami.

Qual é a minha Miami? História nada confiável, porque não se chega até ela em dois dias. A lo mejor en dos meses. Em dois meses virei freqüentadora assídua da biblioteca. Ficava numa praça, onde eu podia devolver os noventa e oito livros e retirar outros cem em qualquer outro prédio da rede pública de bibliotecas. Mas de fato, se o objetivo é fazer compras, fica-se muito impressionado quando se vê a varidedade de ofertas. A mangueira d’água, por exemplo, não entorta sobre a grama, não se deforma com o tempo de uso. As de minha infância nos jardins do Rio somavam dobras irreversíveis que aos poucos não deixavam passar a água, o que tornava a rega das plantas um suplício de dobras e nós, como acontece com os barbantes e fios deixados em gavetas. Mas já as temos por aqui (só nos falta agora o jardim), mangueiras lisas, listradas, elegantes, sem vincos e dobras, deslizam como serpentes. E encolhem-se como serpentes, desaparecem num vupt, e sem tropeçarem no gramado refrescam o jardim.

Ou a máquina de lavar, antes sinônimo de uma brutalidade sem fim. Lá vem o ataque, cuidado, a máquina balança, saia de perto, ai… Essa era a hora de agarrar-se à máquina para protegê-la de tamanha trepidação. Agora aqui também há lugar para amaciante e cloro (o que sempre será um perigo, neste compartimento resiste o sabor secreto de seu espírito brutal) cada um se mistura a seu tempo, intercalado ao sabão. A centrifugação é hora de relax total, não digo já de todas as casas, mas de todo mostruário das lojas em expansão.

Vá lá, a minha Miami: a menina de vestido branco a remexer os sinos no pátio da igreja russa. As igrejas russas. Uma delas era ucraniana, mas o desenho das cebolas nas torres era igual ao das ortodoxas russas. Assisti à Véspera numa das igrejas, os livros escritos em cirílico antigo. Após os festejos queriam que eu ficasse para cantar naquele russo bonito e antigo. Era um dia importante, o dia de São Vladímir, santo que dava nome à igreja. Colocaram em minhas mãos um dos ícones pintados sobre a madeira de fino verniz avermelhado. Diante do convite e dos riscos dourados, segui com eles em procissão. Noutras cores, a dança israeli, com a comunidade judaica. Azul e branco. Algum excesso nas lantejoulas. Os cubanos foram assistir e dançaram também. De noite, jogávamos dominó. Casas baixas, não são de madeira, mas isso nos salvou de sermos levados pelo furacão Andrew em mil novecentos e noventa e dois. O som terrível lá fora, na hora do furacão passar sobre a costa. Antes de sua chegada, jogávamos bola em frente à casa, algumas crianças e eu. Aquele vento desde cedo, o pinheiro balançava, folhas voavam indo para algum outro lugar. As janelas protegidas com fita crepe nos vidros. Nós ficávamos por lá, jogando bola no jardim, gastando nosso medo na energia do vento, não era um vento que dava rodopios, era constante, soprava na mesma direção como se estivéssemos num navio, como se fôssemos nós em movimento, no corte das águas. Naquela noite nos trancaríamos num dos quartos, esperaríamos no silêncio do quarto o incrível ruído passar.

Agora é dois mil e oito, volto para uma visita, as crianças já cresceram, são outras no lugar daquelas, a menina muito animada anuncia aos quatro ventos: I speak Spanglish. Não que não fale inglês ou espanhol, pelo contrário, fala as duas línguas com perfeição. Mas num enorme sorriso e olhos negros brilhantes aponta-me seu vestido novo dentro do armário: es muuuy beautiful. Alguns minutos antes, afoita diante de minha chegada, procurara o mapa do Brasil na internet. Nada de encontrar o mapa, aflita que estava: ¡La hija de Roberto viene! You know… Disse-me exausta… when they told me you were coming, I thought you were nine years old. Não de todo desapontada, continuou a falar: I ‘m just so excited. ¡Mira! Pimba, encontrou na rede: Map of Brazil – Lonely Planet. O guia de viagem. A menina fez uma pausa, olhou-me fundo nos olhos e talvez porque o esforço lhe parecera tão grande, perguntou: Is Brazil a lonely planet?

Um pouco de café cubano, um pouco de leite. O leite está na jarra, entra la abuela de la niña. Vê-me tomando o café, pergunto-lhe estendendo a jarra: está servida? Com a voz firme, responde cheia de espanto: ¡sí, está hervida, está hervida la leche!

Preparo uma pequena mala e lembro-me dos bailes. O dominó, as conversas, os encontros, como se sabe rir. Eram assim as noites seguidas entre os cubanos, depois do dia de trabalho. De noite, todos comemos juntos. Lembro-me dos plátanos verdes fritos. Tostones. Os maduros são melhor ainda para quem gosta de doce. Apesar de serem todos salgados, como a salada de abacate. O aroma vem-me à lembrança porque acabo de deixar a banana queimar. Pronto, virou carvão. Duas bananas d’ouro e metade de uma maçã Fuji que ferviam na água para o café da manhã ainda aqui no Rio. De repente, o cheiro de doce no ar, doce queimado. Todavía no he aprendido. Ainda não aprendi. Mesmo que seja para escrever uma vírgula, você não pode deixar a panela sozinha no fogo. Que desperdício. Nem mesmo uma vírgula, um escritor na cozinha é algo de muito perigoso. A não ser que ele siga à risca o mandamento: não fazer as duas coisas ao mesmo tempo. É mesmo impossível ter uma chaleira d’água no fogão e um lápis na mão ou um teclado sob os dedos. Muito bem, meus caros amigos, quando terminar estas anotações já terei provado los platanitos maduros. Até aqui, da maçã salvou-se a outra metade.

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