Café no bule

De HENRIQUE RODRIGUES.

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(à moda de Marcelino Freire)

E a senhora aí ainda não sabe? Eu sou Café no Bule, a alegria da sua viagem. É, Café no Bule, o pretinho feliz. É o que todo mundo diz. Quero ver, tem quem me regule? Tsc, tsc, liberdade é com Café no Bule. Que, escória, tem memória não, minha senhora? Lembra da minha mãe. É que nem como se fosse tua irmã, né não? Sou quase amigo do teu filho. Se eu sou Café no Bule ele é Sucrilhos. Carrego bala, torrone, amendoim, se quiser te vendo. Tá vendo? Sabia que a senhora ia comprar. Mas olha, eu não quero te incomodar não. Sei que a senhora é de bem. Que nem eu, que vai, que vem, todo dia. Eu sou o Café no bule, o pretinho da alegria.

E o senhor, me olhando torto, não pense que eu tô aqui pra roubo, que eu não tô. É todo dia assim pra mim, indo e vindo. Chorando, rindo, que é isso mesmo. Tem vezes que me dão porrada. Mas não é nada não, não é nada. Eu sou Café no Bule, senhor, mas não esquento. Não esquento, por isso eu tento e tento. E assim me agüento, na minha. Porque se eu paro, quem vai levar o pão pra Rafinha, pro Naldinho, pro Matheus? É Deus? Não, é ele não, meu véio. Deus lá em casa é só Café no Bule, é sério. Minha mãe tá lá doente. Crente crente que o céu vai responder o amém dela. E o senhor aí sentado, é Deus de quem? Hein?

Eu sou Café no Bule. Quando era pequeno me deram nome que gosto. Uosto. Nome de gringo, bem bonito. Mas prefiro o que eu mesmo me dei. Aqui no ônibus sou estrela, rei, e sem pagar passagem! O passatempo gostoso da sua viagem. Fica com pena não, moça. Que eu sou Café no Bule, basta dar uma força. (Aê, piloto, dá uma paradinha aí pra mim!) Mais quem, mais quem vai bala, torrone, amendoim?

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