Monstro

De DANIELA MENDES.

Um menino a esmagar entre os dedos um miúdo pássaro, as penas se amassando, as vísceras explodindo, os olhos saltando para fora. Uma mão, só com uma, a força do pequeno animal se esvaindo, uma vida, a mesma força de criação divina é a da destruição infantil. Dez anos de idade, que nega às bochechas coradas o angélico e faz deste rubro um vermelho demoníaco que jorra em suas mãos. Um vermelho de um bebê passarinho, restando só pele e ossinhos grudados entre os dedos. E a mãe do bichinho, lá no alto do ninho, observa tudo silenciosamente, sem lágrimas nem desespero, o que há de se fazer contra tão descomedida criatura? Ela só pensa na injustiça, que ela mesma poderia fazer muito mais com tanto vigor.

De dentro da casa sua mãe grita, é preciso conservar a limpeza da roupa, o lustre do sapato, os cabelos escovados, a pele seca. O menino então é tomado de um horror! Livra-se do que sobrou do pássaro como se fosse um catarro e corre à mangueira para lavar as mãos. Enxuga-as em segredo por dentro do bolso da bermuda e as dá em obediência à volumosa senhora. De dentro do táxi, são postes e pessoas, postes e pessoas. Quantas janelas tem aquela casa? E a senhora um tanto quanto embaraçada sem saber como cuidar do seu filhote, sem palavras, viveu tanto e nem para si encontrou respostas. Só pensa em Deus, que os anjos protejam a alma dos desafortunados.

Chegando ao destino tudo negro, tudo cinza e flores coloridas. Uma cruz e Jesus todo ensangüentado. Uma roda, uma grande roda, e no centro dela uma caixa, uma caixa trabalhada. O amigo, lá dentro com algodão no nariz não pode mais respirar. De gravatinha e dormindo em paz. As pessoas chamam aquilo de caixão, contam e recontam o caso, que ora é acidente, ora é deus sabe o que faz. E o menino bem quietinho pensa cá com seus botões que não é bem um caixão. Na verdade é uma caixa bem pequeninha para alguém que era um grandalhão.

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