O mar de cada um

De CAROLINA O.

Havia uma concha mágica enfeitando a estante de seu quarto. Não se lembrava ao certo como, quando, nem onde a conseguira; o fato é que a tal concha possuía uma capacidade inata de nos transportar para o mar de cada um. Bastava encostar os ouvidos em sua fresta e fechar os olhos para visualizar o paraíso marítimo que existe no íntimo de todas as pessoas.

Quando estava atribulada, encostava a concha no lóbulo esquerdo e visualizava uma calma imensidão, onde o céu se encontrava com o mar, tamanha a retidão da água azul. Ao sentir-se melancólica, porém, era como se houvesse uma enorme tempestade em suas águas interiores, para fazê-la reagir às vicissitudes de uma vida sem praia.

Quando conheceu aquele rapaz, sentiu-se como se uma onda leve e quente, porém incisiva, a tivesse puxado para o fundo do mar. E ela deixou-se ir, sem defender-se de nada, sem tentar nadar… Ele era uma pérola. Uma pérola das mais brilhantes. Uma pérola que, no entanto, não conseguia enxergar seu próprio reflexo na água.

Ela não compreendia porque uma pérola tão linda e capaz de mergulhar tão fundo sentia-se tão infeliz. E assim, fez tudo que pôde para que seu amor perolado pudesse olhar-se através das águas límpidas do mar de cada um e enxergar sua própria beleza.

Tentou mostrar-lhe as delícias de se banhar sob o sol das quatro da tarde; tentou fazer-lhe boiar de barriga para cima sob os pingos leves das chuvas de verão; tentou mostrar-lhe o quão divertido e inspirador pode ser deixar-se massagear pela areia, imprimindo pegadas para que o próprio mar leve os caminhos passados para longe… E nada deu certo: o rapaz-pérola continuava de olhos fechados.

Até que ela teve um estalo, como um beijo inesperadamente roubado: a razão da tristeza de seu amor era um grande desajuste. Sim, ele era uma pérola sem concha. Foi aí que ela se lembrou da concha mágica que morava em sua estante, aquela que nos leva para nosso cantinho especial, nossa praia íntima e irrevogável. E presenteou o rapaz com a concha que lhe faltava.

Ele só precisava fechar os olhos e encostá-la nos ouvidos, e ela o levaria para seu mar profundo, acalmando-o ou despertando-lhe a paixão, o que ele precisasse. Mas, embora estivesse cego, ele havia desaprendido a fechar os olhos. E sem fechar os olhos, jamais poderia vislumbrar sequer um grão de areia de sua praia pessoal. E colocou a concha mágica na estante de seu quarto, sem nunca mais tocá-la.

A moça ficou muito triste. Uma concha tão especial precisava ser escutada. Não poderia apenas servir para enfeitar um cômodo acomodado. E ela chorou, chorou grande parte das águas de seu mar interior. Chorou, chorou, chorou… Porém, o rapaz amado e perolado também não pôde ver seu choro. Quem não vê seu próprio mar acaba perdendo a capacidade de nadar nas águas do outro.

Foi quando ele devolveu a concha para aquela que o amava. Devolveu, porque a achava mais bonita na estante da moça que na sua própria. A cor da concha não combinava com a de seu lençol. Ele não entendeu que o mais belo da concha está dentro dela: a pérola, que ele próprio nunca percebeu que era. E o barulho do mar, que se ouve quando essa pérola resolve mergulhar.

Quando a concha mágica voltou para as mãos da moça apaixonada, ela chorou de novo, tanto que a peça lhe escorreu pelos dedos como se fossem as águas dessa praia de cada um. As águas do mar interno daqueles que ainda não o tinham conhecido…

A concha se quebrou bem no meio. E a moça percebeu que, na verdade, a magia só existia quando essas metades quebradas se fundiam para formar o barulho do mar. E o barulho do mar que existia dentro da concha só poderia ser escutado quando a pérola já tivesse encontrado seu próprio caminho. Cada pessoa em si mesma é esse mar imenso…

Ao ver a concha quebrada, bem no meio do chão do quarto, o rapaz perolado chorou. Chorou, chorou, chorou… Mas nenhuma lágrima salgada saiu. Não houve barulho de vento nas ondas. Porque ele chorou de olhos fechados, e toda água caiu para o lado de dentro, esturricando seus órgãos de sal.

A moça, ao conseguir enxergar-se refletida nas pálpebras alvas e cerradas do rapaz, percebeu, finalmente, que cada um deve encontrar sua própria concha, sob o risco de naufragar no mar dos outros. Enxugou as lágrimas de seu amado molhando sua boca com um beijo demorado, pois como elas caíram para dentro, chegaram em sua língua pelo interior das bochechas.

Depois, foi embora reconstruir sua própria concha mágica. Mas, antes de poder ouvir seu mar de novo, foi preciso deixar uma nova pérola nascer. A pérola que era ela mesma. E o rapaz antes amado se transformou em um colar de lembranças para se chorar depois. Porque as lágrimas, entre outras coisas, também são pérolas sem olhos que se transformam em dor antes de acharem o seu lugar. E até que nos vejamos refletidos nas águas do mar de cada um, as estantes dos quartos permanecerão vazias.

(Dedicado a Filipe Leroy.)

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Carolina O. nasceu no Rio de Janeiro em 1981. Foi (mal) criada em Brasília, onde reside até hoje, embora seja louca para não residir em local algum. Desempregada, des-estudada e desajustada, escreve por paixão e por necessidade visceral de alma. Nas horas vagas, estaciona poemas e devaneios em Carole, Carole e Think for yourself!.

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