Sombras embaixo da mangueira

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Um homem na tocaia. José Francisco da Silva, 39 anos, com seus códigos à porta do presídio. Dez anos passados sobre as horas da sua obsessão.

Jaílson Rodrigues Pereira de Sousa, 48 anos, sem saúde ou esperança, levantou para o incomum daquele dia. Uma tristeza densa e profunda não o deixava enxergar especialidade nos minutos que seguiam lentos. Não o anima respirar novas cores. Quitava os segundos finais de seu pecado, um tédio infindo. Nada para retomar ou reconstruir. Seu mundo há muito era cinza.

Um sítio de mangas, o Cajueiro, nada produzia além de lazer e galinhas soltas no terreiro. O dono apanhava ovos e presenteava parentes e amigos. Matava um capão e almoçava no domingo. Colhia as mangas. Maduras, bicadas pelos pássaros, caiam, sujavam o chão, traziam mosquitos e cheiro ruim ao tempo. Gastava em cerveja e figo-de-alemão o apurado trazido pelo feirante eventual. A vida correndo na permissão do ganho de servidor mediano da prefeitura. Passado de Jaílson.

Kessi Jonny Queiroz tinha nove anos e a companhia de dois irmãos e um colega que não tinham ido além da fronteira do décimo primeiro aniversário. Entraram no sítio – havia um furo na cerca dos fundos. Calados, risos presos, brincavam de esconder. Um deserto de vigilâncias e cachorros. Escalaram uma árvore. Apanharam os frutos maduros. Kessi, à sombra, amparava a coleta, as mangas do Cajueiro.

Iam embora, as camisas carregadas com o breve furto. Ouviram os tiros.

Jeseliel Machado, 26 anos, passava no Cajueiro quando viu os meninos e as mangueiras. Quatro horas de uma tarde. Correu à Prefeitura e chamou Jaílson. Entraram no carro e apanharam os revólveres. Às quatro e meia desceram no sítio disparando. Os meninos derrubaram as mangas e correram. Os homens perseguiram. Atirando. Uma bala atingiu a nuca de Kessi, percorreu seu crânio e fugiu pela testa. Quatro e trinta e três da tarde.

Jaílson pulou sobre o corpo e persistiu na perseguição. Ele e o compassa pararam e reabasteceram os revólveres. Quatro e trinta e cinco. Correram mais. Os meninos iam longe. Os homens voltaram respirando com dificuldade, rindo da aventura.

Jaílson carregou Kessi, respirando com dificuldade, para dentro da casa. Uma pluma, o raquítico. Deitou no chão da sala o pacote ensangüentado, trancou a porta e saiu com o amigo. Eram quatro e quarenta.

Os sobreviventes chegaram ao campo onde o pai, José Francisco, 29 anos, capinava o roçado de macaxeira. Largou a enxada para correr ao Cajueiro. Encontrou uma camisa de menino, mangas desgarradas e uma poça de sangue. Varejou o sítio, bateu na porta da casa. Ouviu o silêncio da tarde e o sopro do vento. Dez para as cinco. Foi à delegacia e esperou o delegado. A tarde era quase finda, seis horas, quando voltou com os policiais ao sítio. Precisaram de lanternas para catar cada canto. Ninguém achou Kessi e o delegado não trazia permissão para arrombar a porta, buscaria o dono de tudo, o atirador Jailson. Sete horas.

Sessenta minutos depois, oito horas, Kessi estremeceu num estertor solitário. Acalmou. A respiração enfraquecia, espaçava.

Outra cidade. Bem além da meia-noite a polícia chegou. Jaílson e Jeseliel bebiam com amigos, as armas no carro. Nada negaram. Passos burocráticos.

Kessi vivia quando, três horas da madrugada, a polícia o encontrou no chão frio da sala. Morreu na ambulância que o levava ao hospital. Três e vinte da madrugada.

Dez anos.

Jaílson, um velho, era nada. Não carregava apetite. A mulher nunca o visitou, desempregado, o Cajueiro engolido como paga de advogado.

Na porta do presídio, livre, não sabia de rumos. Olhou Francisco vindo com determinação e força. Envelhecera, mas tinha viço. Sentiu a faca cortar as entranhas. Uma dor aguda encoberta pelo alívio que lhe domava.

Você me fez um grande favor, amigo.

Suas últimas palavras.

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