‘Boxeurs’

De ANDRÉ DE LEONES.

1. O boxeur Tião faz o que lhe pedem. É tudo muito simples e o que ele precisa fazer e faz é correr pelas ruas de Paranaguá socando o ar e depois subir, triunfante, a escadaria da COPEL acompanhado por meia dúzia de piás. Feito um campeão. Ele obedece e faz a coisa toda com muito gosto porque isso é televisão. Mais: é cinema. A idéia do câmera é remeter à cena de Rocky II em que Sylvester Stallone, encarnando o lutador de (até aqui) seis vidas Rocky Balboa, corre pelas ruas de Philadelphia acompanhado por uma multidão crescente de crianças. Há uma cena quase idêntica no primeiro filme da série, exceto pelas crianças. Ou seja: Rocky corria sozinho no primeiro filme da série. Tião, por sua vez, desde o começo, desde essa primeira aparição na tevê, corre acompanhado por meia dúzia de piás. É claro que, na edição, o tema musical de Bill Conti complementará a coisa, deixando muitíssimo clara, para não dizer óbvia, a ligação entre o personagem real Tião, boxeador e funcionário de funerária, e o boxeador Rocky, a princípio azarão e depois lutador imbatível. Tião corre pelas ruas de Paranaguá em direção às edições local e nacional do Globo Esporte.

2. A funerária fica na São Benedito. As pessoas passam e comentam, mexem com ele. Ele está nas nuvens. Ele só quer continuar lutando. Ele treina quando tem tempo, os caixões ao redor e o som dos socos, um após o outro. Ele atendeu ao telefone e disseram que era da RPC. Pensou que fosse trote. Não era. A equipe chegou e então o filmaram trabalhando e depois treinando, correndo pelas ruas, todo Balboa, Balboa por inteiro, subindo a escadaria da COPEL. Os piás estavam por ali. Mesmo que os profissionais da RPC não quisessem, os piás dariam um jeito de aparecer. O câmera teve a idéia. De qualquer forma, como manda o manual do jornalista em se tratando de matérias sobre boxeadores: tem que meter o tema do Rocky, não pode faltar. A equipe foi embora e Tião se viu na tevê. A cidade inteira viu, o país inteiro. Foi trabalhar no dia seguinte dando socos no ar.

3. O menino chegou em casa dizendo que ia aparecer na televisão e que daquele dia em diante, tinha decidido, ia virar lutador de boxe. A mãe estava lá fora, no tanque, esfregando uma bermuda do marido. O pai estava no Itiberê. A casa ficava na banda pobre da Ponta do Caju. Até ontem, disse a mãe, você queria ser pescador como o teu pai. Ele contou que ia aparecer na tevê junto com o Tião. Que Tião? O Tião Funerária. Ele é boxeador. Se ele é boxeador, argumentou a mãe, por que chamam ele de “Tião Funerária”? Porque ele trabalha lá quando não tá lutando ou treinando. Ah, fez a mãe. Ele contou a história toda, descreveu o pessoal da televisão e praticamente mostrou como correu atrás de Tião pelas ruas da cidade, enfatizando o momento em que, todos juntos, subiram as escadarias da COPEL e pularam em êxtase junto com o boxeador. A mãe fingiu estar impressionada e disse que não perderia o Globo Esporte de jeito nenhum. O pai também não pode perder, ele disse, e foi para o quarto. Lá, colocou o colchão de pé, apoiado na parede, enrolou camisetas nas mãos e começou a treinar. O vizinho de cima era traficante. A banda pobre, podre da Ponta do Caju. Enquanto socava o colchão, o menino pensou que o pai vai ficar orgulhoso quando eu contar pra ele que eu escolhi virar lutador de boxe.

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