O caminho através

De FERNANDA LAMADRE.

Os passos cobriam a distância entre o carro e o edifício. Passos mal-dados, sem vontade. Chega-se, como sempre, e diz-se ao ascensorista: nono andar. Sobe-se. Papéis, papéis, papéis.

Sonhou naquela noite com uma borboleta âmbar, absolutamente ordinária. Não podia afirmar com certeza se já tinha visto uma borboleta ao vivo. Os tempos em que nascemos, pensava, nos gravam na memória cenas cotidianas e cenas televisivas com o mesmo cinzel. Fazia falta um molha-dedos para virar todas aquelas páginas.

Tédio cotidiano, vida cotidiana: era isso o que havia? Cansava de esperar pela revelação, o apocalipse, a grande reviravolta. Onde estava o mistério? Páginas e páginas descrevendo obviedades. Pessoas e pessoas com conversas baratas. Carros e carros seguindo os caminhos urbanos. Cansaço injustificado nas pernas – poucos passos entre o carro e o edifício!

Elevador, térreo, passos, carro. Se aproximou sem reverência, e se assustou, portanto, quando viu a borboleta com a qual sonhou pousada no espelho retrovisor. A borboleta parecia estar esperando, para, uma vez percebida, voar embora.

A sincronia não lhe apontou nada. A coincidência não tinha importância. Poderia ter chorado ali, ao abandonar as impressões e idéias que tinha sobre todo o sentido que tentou dar ao universo. Mas não o fez. Sentou-se no carro, simplesmente. Lembrou-se e então entendeu que vivia o caminho através da vida. Era o caminho humano, o caminho possível. Era a luta cotidiana com o tédio, era a memória dos tempos e tempos em que se vem lutando com a ausência de sentido, a dor da ausência, até o momento da aceitação, que é, de fato, o momento da revelação.

A vida não pode ser contornada, a vida não pode ser evitada. Em tédio ou desespero, em alegria ou embriaguez, a estrada passava por esses cantos, por essas curvas, por essas montanhas que parecem apontar um destino para além delas, revelando, finalmente, a ilusão que escondiam.

Não há sentido, não haverá juízo final. Contar páginas, rever contas… cotidianos… desesperos… tédio… apontando apenas uma coisa: não há, de fato, caminho. Se a estrada tangencia o absurdo, deve ela, também, viver desse absurdo. Não há, então, escolha a fazer. Não há por que temer a inércia, a imobilidade: não há alvo.

De alguma forma, a perspectiva a acalmou. Esboçou um sorriso. Seria uma conformista, seria uma vítima. Não se importava. Seria acusada. Não se importava. Já não sentia o dever de prestar contas a ninguém.

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Fernanda Lamadre nasceu em São Paulo em 1981, mas cultiva raízes em Brasília desde 1995. Perde-se cotidianamente em paixões, e se encontra graças aos amores eternos: pessoas insubstituíveis, especialmente sua filha, idéias e música. Quando a musa lhe concede uma dança, escreve nos blogs Manifesto dos Sem-Respostas e This is my only line.

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