Santo Paulo

De NEREU AFONSO DA SILVA.

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[o texto abaixo não foi propriamente retirado de uma notícia de jornal; ele é um texto de jornal, ou melhor: encomendado por um jornal – Folha de S. Paulo – que não o publicou na edição que acabou chegando às bancas; sua particularidade é ter exatamente 100 palavras e evocar a capital paulista, duas exigências do editor que o recusou]

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Paulo, o santo, pregava de cidade em cidade. Persuadido de que mais importante do que criar é relatar a criação, legou-nos folclóricas cartinhas. Chamou suas parvidades de Epístolas. Como em toda criação destinada à gente pouco exigente, eram construções feias e violência fora do tom que poluíam o conjunto. A obra garoava, chovia, porcarias: um desajuste só. O Santo-das-Cidades era um nota zero em harmonia e justiça. Mas, como todo ressentido que se preze, tinha sua graça, hilaridade até. Num belo dia – enorme homenagem – certa cidade, tosca, insidiosa, feito o santo que lhe dá nome, foi batizada de São Paulo.

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