Seis anos

De DANIELA DOS SANTOS.

Parece menor agora, o buraco. Parecia a cada dia menor, mas mais difícil de sair. Parece que a vida era assim, mesmo. Parece que em todo o mundo, era normal que as pessoas estivessem como ela está. Não, não, o que ela sonhava, de criança, em ser médica ou então manicure, aquilo não fazia nenhum sentido. Não que tivesse parado de sentir dor. Dói ainda e doía sempre quando ele chegava. E ela grita ainda. Mas nunca adiantou. Nunca adiantava nada. Nunca nada adiantava. Lembra-se de uma voz fininha fininha gritando em sua infância. Salve-me, salve-me Popeye! Claro que era mentira. Passava na TV, ela se lembra. Lembra uma fórmula mágica de ser forte. Mas era tudo mentira. Lembra quando a mãe fazia espinafre e ela nunca ficou forte. Lembrava muito da mãe, mas agora quase não lembra. Não lembra muito do rosto dela. Não lembra muito do seu próprio rosto. Só ele sabe como ela está agora. Só ele sabe onde ela está agora. A mãe não conhece o rosto dela agora. Faz seis anos. Seria ainda reconhecida pela mãe, se chegasse de surpresa? Ela era criança, naquela época. Lembra já ter apanhado, quando criança. Então, definitivamente apanhar é normal. Lembra de já terem lhe passado as mãos gordurosas pelo corpo que ainda não estava pronto. Claro que isso também é normal. Mas é tão ruim. Tão ruim. Uma vez, não, duas vezes, chegou a ter esperança. Não esperança de que tudo mudasse, claro que não. Esperança de que tivesse companhia: Um ou dois bebês fariam muito bem a ela. Companhia. Crianças andando pelo buraco, aprendendo desde cedo que o normal são correntes. Só não saíram da barriga da mamãe com correntes porque ela estava com anemia, durante a gravidez (lembrava-se da professora: anemia é falta de ferro no sangue; pra sarar, basta colocar um prego dentro do filtro. Olha só que maluquice!). Claro que não era assim. Claro que não era normal. Mas se sua mãe a encontrasse, como seria? O que faria fora do buraco, como viveria sem correntes. Conseguiria, ainda? Faz seis anos. Conhece muito bem o seu poço, agora. Conhece muito bem o seu dono. Mas não conhece mais a mãe.

Hoje, mesmo, ele está demorando pra chegar. Demorando muito.
Um barulho na porta, mas não o barulho de porta, um barulho de chute na porta.
Ele esqueceu a chave.
Um barulho de porta caindo.
Um susto maior que os de sempre.
Ela está aqui!
Não é a mesma voz.
Calma, moça. Acabou, acabou tudo! Vamos tirar você daí.
Acabou, acabou tudo!
Mas tiram as correntes.
Não, acabaram só as correntes.
Levantam-na. Tiram do buraco.
Acabou só tudo o que conhecia.
Vamos passar primeiro na delegacia, depois na assistência social, depois você vai pra casa.
Acabou nada. Vai é começar. É agora que vai finalmente recomeçar tudo. Foi só uma pausa. De seis anos.

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