Avenida Almirante Gonçalves

De MARCELO MOUTINHO.

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Eram dez e quinze
E fazia calor
Na Avenida Almirante Gonçalves

Na conta, um pão na chapa
Mais a média de café
E os fósforos
(“Pode ficar com o troco, seu Zé”)

Como uma lâmina gelada
O álcool escorreu:
Cabelos
Pescoço
Barriga
Pernas
Chão

As nervuras
– saudosas da placenta –
Dobravam-se ao afago do líquido viscoso
Os pêlos
– soldados em fila –
Armavam-se no frescor do banho
A camisa
– franzida e úmida –
Hesitava entre a transparência e o fulgor

Então o palito rangendo contra a lateral da caixa
Então o berro agudo da mulher ao longe
Então o corpo

Ardendo
Ardendo
Ardendo.

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