Domingo

De RONIZE ALINE.

Meio-dia. Meio do dia de um dia qualquer. Não para ele. Para ele é sempre domingo. Domingo, o dia em que foi mais feliz. Domingo de acordar tarde, da macarronada com galinha na mesa grande da sala, da visita da tia Carminha sempre com um presente na mão, do doce de caju de sobremesa, da pipa no céu com os amigos. Agora é sempre domingo. Não quer as segundas nem as sextas. Quer o domingo, para pensar que ainda é feliz.

Meio-dia passados dez segundos. O alarme dispara logo abaixo da sua janela. É um som estridente, ininterrupto, que vai se tornando irritante à medida que não silencia. Vai até a janela, olha para baixo como para certificar-se que é mesmo um alarme de carro. Melhor sair da janela, ligar a televisão. Esses canais andam malucos, trocam a programação de domingo sem avisar, devem pensar que é quarta-feira. O volume do aparelho não alcança o volume do alarme. Devia chamar a polícia, isso já ultrapassou em muito os decibéis suportáveis pelo ouvido humano. Desliga a televisão e vai fazer um sanduíche. Domingo é dia de sanduíche de presunto, nada daquela mortadela sem graça que era obrigado a comer quando criança. Mortadela é para os dias de semana, presunto é para o domingo. Estranho é que o presunto tem acabado logo, parece até que há mais domingos do que outros dias.

Meio-dia e mais uma eternidade. Não consegue terminar de comer o sanduíche. O barulho parece afetar suas papilas gustativas e o presunto fica com gosto ruim, gosto de mortadela. Melhor deixar na geladeira para a Déia, agora que ela insiste em vir limpar o apartamento aos domingos. E o pior é que teima que é segunda-feira. Quanto tempo terá se passado desde que esse alarme disparou? É inútil olhar as horas pois todos os relógios da casa estão parados e cada um traz uma marcação diferente. Enquanto no quarto é sempre hora de dormir, na cozinha o horário é o do almoço e na sala está na hora do jogo de futebol. Mesmo que não esteja passando jogo quando liga a televisão.

Meio dia e um desespero. O quartinho dos fundos é a saída. Difícil vai ser conseguir entrar, está entulhado de coisas. Um antigo jogo-de-botão, empoeirado, Vasco e um outro time qualquer. Ele, sempre Vasco; os outros podiam escolher qualquer time. Faltavam alguns botões, o tabuleiro estava gasto. Alguns sapatos velhos. O cheiro de mofo era forte, não tanto quanto o barulho. Esse parecia não querer abandoná-lo. Conseguia imiscuir-se até mesmo ali, onde quase não havia espaço nem para respirar. E parecia que chegava ainda mais alto, fortalecido pela desfeita com que fora recebido. Não, não estava lá fora o barulho, não era mais uma questão de desligar ou não o alarme. Estava ali dentro, na sua cabeça, e não podia ser desligado.

Quando era pequeno costumava ouvir um som estranho, mas fora proibido de comentar em casa. Família decente não tem filho que ouve barulhos, diziam. Melhor esquecer o tal som, colocá-lo num cantinho escondido da cabeça. Então era isso! Não era o alarme que o perseguia, era o barulho dentro da sua cabeça que voltava a se fazer presente. Não adiantaria fugir, o ruído o acompanharia. Voltou à sala, olhou pela janela. O carro continuava por ali à espera do dono. Alguns passantes começavam a se juntar ao redor do veículo, só o dono não chegava para desligar o tal alarme. O jeito seria desligar ele mesmo. Assim, quem sabe, o barulho dentro de sua cabeça cessaria também. Então, por que não ir por ali mesmo? Pouparia tempo. Apenas um pulo e estaria no carro. Afinal, onze andares não são grande coisa!

.


%d blogueiros gostam disto: